quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Feira de Santa Iria contada pelos mais velhos




A feira de Santa Iria realiza-se em Tomar há mais de 300 anos e vem-se modificando de ano para ano. Fomos descobrir como era aqui há cinquenta anos.



“Já ouvi e vi, os palhaços passarem pelas ruas, distribuindo panfletos onde constam as suas principais atracções. As barracas de comes e bebes vão abrindo timidamente as portas, mostrando as mesas e bancos corridos, os pipos de vinho, os copos alinhados. As louceiras desembrulham cuidadosamente, as loiças, os bonecos, os santinhos, os belos penicos, decorados, com paisagens bucólicas, flores e até imagens piedosas”. É este o olhar que Maria Águeda Costa, 64 anos, doméstica, relança sobre a Feira de Santa Iria da sua meninice. Aquela que era iluminada “com uma luz fraquinha” e na qual eram penduradas nas bancas de roupa as samarras ribatejanas, com golas de raposa, e os safões, uma espécie de calças de pele, atacadas com cordões. Aquela em que os brinquedos de madeira, de lata, as bonecas de papelão ou celulóide, “enchiam de sonhos, as cabecinhas miúdas, de grandes olhos, arregalados pela cobiça, de tais tesouros”. Naquele tempo, “as mulheres, de grandes aventais, lenços, mais ou menos garridos na cabeça e xailes de lã (na Santa Iria já faz frio), tomavam conta da mercadoria, enquanto falam, de um modo cantante, que eu ainda conservo”, aponta desiludida com as luzes psicadélicas e a música ao vivo e gravada que ecoa no largo da feira.


A feira de Santa Iria realiza-se em Tomar há mais de 300 anos e vem-se modificando-se de ano para ano. Actualmente divide-se entre a Várzea Grande, onde são instalados os divertimentos e a Praça da República, onde tem lugar a Feira das Passas. No recinto do mercado municipal são montadas as tasquinhas de comes e bebes onde o frango assado é rei. Mas nem sempre assim foi. Que o diga Vítor Antunes da Silva, 60 anos, um cantoneiro reformado, que defende que a feira antigamente “era mais divertida e melhor”. Lembra-se, sobretudo da sardinha assada, que se vendia nos terrenos localizados em frente da Rodoviária, junto à Várzea Grande. O frango assado era petisco ainda desconhecido e só viria posteriormente. “Naquele tempo as pessoas compravam as sardinhas e depois iam-nas assar nas fogueiras que por ali haviam. Cada vendedor tinha uma fogueira”, contou. A sardinhada era sempre degustada na companhia dos pais e do irmão no dia em que escolhiam ir ao circo que, à época, era “grátis às damas”. A acompanhar a nova água-pé e gasosa para os meninos. A mãe comprava um pão de quilo na Padaria Mesquita (onde hoje funciona a Farmácia Central) para ajudar a compor o petisco.


Também a célebre feira das Passas está diferente. Conta Maria Águeda Costa que o dia 19 de Outubro era, por excelência, o dia da feira das passas. Munidas de seiras de palha ou, cabazes de verga, numa época em que os sacos de plástico não existiam, as senhoras rumavam à feira para comprar os belos frutos secos que no feriado de Todos-os-Santos, a 1 de Novembro iriam distribuir pelos meninos que pediam “O pão por Deus”. Os frutos secos que restavam seriam para no Natal seguinte enfeitar a mesa da Consoada.


A memória mais remota que José Antunes, 87 anos, retém da Feira de Santa Iria é do célebre “Poço da Morte”, divertimento que o levava à feira todos os anos. Já tinha mais de 20 anos quando viu, pela primeira vez, as acrobacias de mota que tinham lugar dentro de um poço de madeira. “Era um espectáculo grandioso que deixava toda a gente de boca aberta”, recorda. José Antunes recorda as filas enormes que se faziam junto “à barraca redonda que parecia com um moinho antigo” e onde um motard fazia manobras impressionantes.” Nunca o vi falhar”, recorda. E teve pena de não ter ido ao certame em 2006, quando o poço da Morte regressou à Feira de Santa Iria após muitos anos de interregno.


Fui muito feliz nos carrinhos de choque”

Pedimos a um jovem tomarense que nos contasse qual a sua melhor recordação da feira de Santa Iria enquanto criança. Luís Ribeiro, 34 anos, comercial conta-nos como foi feliz a andar de carrinhos de choque:




“Uma das coisas que mais me alegrava enquanto miúdo era a época da Feira de Santa Iria. As castanhas assadas, o ambiente que se proporcionava e claro está, os carinhos de choque. Há alguns anos atrás era um frequentador assíduo das pistas de carrinhos de choque da Feira de Santa Iria, que era uma loucura para qualquer miúdo da minha idade. Na pista tentávamos aprender malabarismos técnicos ao volante naqueles carrinhos que para nós eram a maior atracção da feira, ao som da onda musical debitada pelos altifalantes no tecto da pista. O intuito de cativar as raparigas estava também presente nas nossas mentes. Lembro-me perfeitamente de alguns casos em que se tivesse umas fichas para andar, a probabilidade de receber um beijinho era bem real. Naquele tempo não me era muito fácil obter as tão desejadas fichas mas fazia alguns sacrifícios para as conseguir e um desses era trabalhar nas férias grandes para juntar algum dinheiro. Ao microfone ouvia o DJ gritar: “As meninas não pagam… mas também não andam!”. Enfim recordar estes momentos faz-nos sorrir de saudade, levando-nos a viver boas recordações. Posso afirmar que fui muito feliz nos “carrinhos de choque”.

Publicado na edição de O MIRANTE a 15 de Outubro de 2009

3 comentários:

Maria disse...

Elsa:
Gostei muito do artigo sobre a feira.
Ainda me lembro também do poço da morte, que me fazia um medo horrível. Acho que só lá entrei uma vez.
Já os carrinhos, de que o meu amigo Luís tanto gostava, não me agradavam, precisamente por causa dos choques. Para mim, o Circo e os Carroceis, eram o máximo.
É bom lembrar estes tempos, mas faz saudades.
É bom que alguém tão novo, tenha tido esta ideia de juntar 3 testemunhos de idades diferentes.
Disponha de mim quando quiser.
Beijinho e mais uma vez, PARABÈNS.

Elsa Ribeiro Gonçalves disse...

Obrigada Maria. Também aprendi muito com este trabalho :)

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Elsinha & mais malta

Acabei de postar um textículo meu na Minha Travessa, intitulado "O mal e a caramunha". Adivinha(em) sobre quem é... Sobre a «senhora» M. Proença... E tem uma foto dela muito sugstiva...Se quiseres(em) ter a bondade de lá ir e cumentar (com o) fico à vossa espera. Obrigado.

Magnífico trabalho de uma jornalista sem mácula. As nossas feiras não feiras de vaidades; são autênticas. Se quiseres conversar comigo num próximo trabalho - estou à tua disposição.

Muitos parabéns!

Qjs

Qjs & abraços