segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Uma profissão que nos escolhe para o resto da vida
Quando saiu a primeira edição de O MIRANTE, a 16 de Novembro de 1987, eu tinha onze anos e já praticava uma espécie de jornalismo de proximidade. Foi mais ou menos nessa altura que comecei a tirar fotografias aos clientes da tasquinha de comes e bebes que os meus pais têm nos arredores de Tomar, com uma máquina fotográfica descartável, que revelava com os trocos que tirava às escondidas da gaveta. Depois colava-as numa folha de papel cavalinho A3 e, por debaixo das mesmas, escrevia à mão o perfil do fotografado e quais os petiscos que ele mais apreciava. Fazia aquilo, por brincadeira, uma vez por mês e os clientes perguntavam sempre quando saia o próximo exemplar do “Jornal do Chinquilho”. A determinada altura um deles perguntou-me se podia ali colocar o número de telefone da sua agência de Seguros e passou a dar-me algum dinheiro em troca com o qual passei a pagar as fotografias e as fotocópias. Foi assim, daquela forma muito incipiente, que contactei pela primeira vez com a “indústria” do jornalismo. Foi assim que a profissão me escolheu para o resto da vida.
Quis o destino que, vinte anos volvidos, viesse a trabalhar no jornal que é considerado como uma das maiores referências ao nível do jornalismo de proximidade não só no distrito de Santarém como no país. Agora já não escrevo para contar que o senhor Carlos que gosta de beber umas imperiais acompanhadas por tremoços depois de um dia de trabalho na fábrica de papel do Prado mas muita da minha prosa continua a debruçar-se sobre pessoas e sobre os problemas que as afectam. Pessoas comuns como aquela senhora das Curvaceiras, na freguesia rural de Paialvo, Tomar que, padecendo de uma doença genética degenerativa, não podia sair de casa porque as condições do terreno não eram propícias à cadeira de rodas manual em que se deslocava. Um grupo de cidadãos estava a tentar angariar três mil euros para conseguir comprar um equipamento eléctrico e assim melhorar a autonomia da Clementina Vicente. Após eu ter dado a notícia daquela iniciativa solidária uma empresa de Alcanena contactou O MIRANTE e garantiu o dinheiro em falta para a compra da cadeira. Sei que não consigo mudar o mundo mas também sei que muitas vezes, a aparente insignificância do que escrevo pode fazer a diferença na vida não só de uma pessoa como de toda uma comunidade. E é dessa esperança que me alimento diariamente enquanto cidadã e jornalista.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
O professor de ginástica que tem um pavilhão com o seu nome
Nascido no seio de uma família humilde, José Maia Marques
acalentava em criança o sonho de seguir Educação Física. Tinha 43 anos quando conseguiu o diploma e, a partir daí, o desporto não parou mais de crescer no seu concelho.
José Maia Marques, 63 anos, surge-nos na sua forma autêntica: calças de fato de treino, t-shirt básica e de boné na cabeça. Homem alto e de porte atlético, foi professor de Educação Física até ao dia 1 de Abril de 2009, altura em que se reformou. Tem muitas saudades de dar aulas, “a sua grande paixão” e confessa que ainda vai até à Escola Secundária de Mação jogar badmiton com os alunos, modalidade que ajudou a implantar no âmbito do Desporto Escolar. Mas não foi a única. Dinamizou a implantação do atletismo na Ortiga, do futsal, do futebol de onze, BTT, natação e, quando se deu a viragem no século, ocupou-se dos desportos radicais. “Ensinei milhares de pessoas a nadar nas piscinas de Mação. Não se ganhava quase nada mas tinha o Verão ocupado e divertia-me”, conta.
Foi ainda menino, entre os sete e os onze anos, que começou a jogar futebol com uma bola de trapos que pediu à mãe. Esta resistiu à ideia porque “ele ia estragar os sapatos” mas acabou por ceder. Quem não tem cão, caça com gato e, por isso, lembra-se que fazia corridas de bicicletas apenas com guiadores ou jogava hóquei em patins com paus retorcidos e com uma bola de matraquilhos roubada. Mais tarde, já em Alvega, ficava encantado com as aulas de ginástica que tinha semanalmente com um professor que se deslocava à escola de propósito para esse fim. “Tinha onze, doze anos quando defini a minha profissão futura: professor de ginástica. Até ao 7.º ano foi fácil estudar mas o resto….”, confessa.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
E quando um casal de deficientes se “atreve” a namorar?
“Quando duas pessoas se amam e querem viver juntas deviam ter direito à sua sexualidade. Mas não têm. Um deficiente é, para a sociedade, um ser assexuado. Este é o primeiro obstáculo e a família os primeiros oponentes”. As palavras são de Isabel Barata, que se deslocou a Abrantes para apresentar o livro “Unidos no Amor contra a indiferença”, que escreveu juntamente com o seu namorado, Manuel Matos, em 2009. O livro pretende ser um alerta contra a indiferença de uma sociedade que deixa os seus cidadãos com deficiência serem destítuidos do direito básico de constituirem família e serem felizes. A apresentação, que coincidia com um jogo da selecção portuguesa, vai ser repetida em breve.
Isabel Barata, com uma incapacidade física de 84% e Manuel Matos, com 99,9% de dependência, namoraram três anos. Durante todo o tempo da relação lutaram “pelo direito ao afecto, à sexualidade, a uma vida inteira e normal”, encontrando obstáculos de todos os lados. O último dos quais foi o epílogo da própria relação: Manuel não chegou a ver o livro escrito a quatro mãos publicado uma vez que faleceu em Maio de 2009, alguns dias depois da editora ter acedido à chancela da obra.
“Este livro é o nosso filho. A razão da minha existência”, refere Isabel Barata a O MIRANTE momentos antes da apresentação. O convite para estar em Abrantes partiu do amigo Eduardo Jorge, tetralégico que vive na Concavada e que se emocionou com o testemunho do casal, identificando-se com as suas angústias. Isabel Barata, economista e Manuel Matos, professor, conheceram-se por intermédio de um amigo comum e trocaram bastante correspondência antes de se encontrarem pela primeira vez. Foi ela que foi de Lisboa ao Porto, ao seu encontro, uma vez que era mais fácil deslocar-se.
“O Manuel nunca acreditou que, quando eu o conhecesse, continuava a namorar com ele porque tem uma aparência que não é vulgar”, atesta Isabel, referindo que já o conhecia pelas palavras mas o sentimento falou mais alto. “Um amor de dentro para fora”, como descreve, e que foi oficializado perante as famílias com o primeiro beijo. De ambas as partes, a família não encarou bem o facto de duas pessoas com tantas limitações físicas gostarem uma da outra e quererem viver juntas. “Foi uma luta permanente. Há muitas limitações. Não há privacidade. O Manuel tinha 50 anos e eu tinha 38 mas se os pais não concordarem não há namoro para ninguém”, atesta.
Manuel Matos, que nasceu com uma doença degenerativa e progressiva ao nível muscular, mexia apenas um polegar mas não era por isso que amava menos Isabel. “A minha mãe dizia-me: o que é que vai fazer ao Porto se o Manuel só olha para ti? Há muitas maneiras de amar. Só o olhar do Manuel me fazia me dava mais força”, disse.
Para Eduardo Jorge, que ficou tetraplégico há 20 anos na sequência de um acidente de viação, os casais que são constituídos por pessoas portadoras de deficiência deviam ter direito a um cuidador específico, uma espécie de terapeuta sexual. “Nós precisamos de uma pessoa que nos ponha na cama, nos limpe os genitais, nos coloque um perservativo. Porque é que a Isa e o Manuel não podiam viver juntos, na casa deles, com um cuidador pago pelo Estado? Se nos lares, quando existem casais de velinhos, há espaço para que privem num quarto, porque é que um casal de deficientes não pode ser ajudado para poder desfrutar da sua sexualidade em pleno?”, interroga.
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