quinta-feira, 1 de abril de 2010

Aluno da Escola Gualdim Pais em Tomar vítima de agressão de grupo


Pais apresentaram queixa na Polícia e os alunos envolvidos estão a ser alvo de um procedimento disciplinar.
Um jovem de 14 anos foi agredido com violência por oito colegas na tarde de sexta-feira, 19 de Março, junto ao campo de futebol da Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos Gualdim Pais, em Tomar. Tudo aconteceu no intervalo das 16 horas quando o jovem se encontrava na companhia de outro colega. “Viu um grupo a aproximar-se e comentou para o amigo: “Vai-te embora que eles vêm-me bater”, contou a mãe da vítima. O rapaz não quer dar a cara por recear mais represálias. Os pais apresentaram queixa na polícia.

A agressão foi causada por uma situação típica da adolescência. Naquela manhã alguém bateu na sua namorada, pelo que foi pedir satisfações, pela hora de almoço, à rapariga que a agrediu, envolvendo-se fisicamente. Esta, por sua vez fez queixa ao namorado que terá juntado o grupo que desencadeou a agressão colectiva. “Foi agredido na barriga e nas costas, ao murro e pontapé. Como tem o cabelo comprido também lhe deram muitos puxões de cabelo. Foi a minha filha mais nova que me ligou a dizer que o irmão estava morto no campo de futebol”, contou a mãe que lamenta que a escola não tenha chamado uma ambulância. O jovem acabou por ser socorrido por um funcionário que o reanimou e foi levado para a enfermaria. “O meu filho é menor. A escola tinha obrigação de o levar para o hospital”, considera.

Notícia completa na edição de O MIRANTE publicada a 1 de Abril de 2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

Fogo suspeito destrói quatro autocarros na estação de Tomar




Polícia Judiciária deslocou-se na manhã de terça-feira à Central de Camionagem para recolher elementos que ajudem a investigação.

São, por enquanto, desconhecidas as causas que levaram um autocarro da Rodoviária do Tejo a incendiar-se na madrugada de terça-feira, 23 de Fevereiro, cerca das 5h45. O fogo alastrou-se a outras três viaturas, estacionadas em linha. Três delas arderam por completo e outra foi atingida na traseira mas todas sofreram danos irreparáveis. Os prejuízos são da ordem de "milhares de euros". A hipótese de este incêndio ter ido consequência de um acto de vandalismo é a que ganha mais força entre os motoristas com quem falámos, sob reserva de identidade. Á noite, a estação encontra-se vedada à entrada do público mas existe forma de aceder à mesma através da estação de comboios.

Foi o responsável pela estação de Camionagem, o chefe Mário Rodrigues, que deu conta do sucedido e chamou os bombeiros municipais de Tomar que acorreram rapidamente ao local. “Primeiro ouvi um estoiro e vidros a partir e só depois me dei conta que o autocarro estava a arder”, contou a O MIRANTE. O operacional entra ao serviço às 6h30 mas tem por hábito chegar mais cedo. Ainda conseguiu salvar três ou quatro viaturas, duas delas dos Transportes Urbanos de Tomar, conduzindo-as para um local mais afastado das chamas. “Estou nesta empresa há quase 35 anos e nunca vi uma coisa assim”, atestou.

(Ler artigo aqui)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A proeza de conduzir há 63 anos sem nunca ter tido um acidente



Joaquim Braz das Neves, 89 anos, antigo agente comercial percorreu milhares e milhares de quilómetros sem nunca ter tido um incidente ou apanhar uma multa.


Joaquim Braz das Neves, 89 anos, não aparenta a idade que tem. O escritório de sua casa, no centro do Entroncamento, onde se desenrola a nossa conversa, mostra que é um homem que gosta muito de ler e escrever. Tem uma letra bonita. Não tem feitio para estar parado. A esposa, Fernanda, senta-se por perto e olha sempre com muito carinho para o marido, com quem casou há 58 anos. Joaquim Braz das Neves tem algo para contar e de que poucas pessoas se podem gabar: conduz há 63 anos e nunca teve um acidente, nunca foi multado ou apanhado em infracção a conduzir. Para o comprovar mostra o certificado emitido pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária que atesta que no seu registo individual de condutor “nada consta”.

A paixão pela arte de condução é notória. Por isso, Joaquim Braz das Neves conserva e mostra a fotografia que lhe tiraram junto ao seu primeiro carro, em 1930. Em seguida mostra a carta de condução que renovou no passado mês de Novembro ate 2012, altura em que terá 91 anos. “Os médicos foram bastante rigorosos comigo, sobretudo na parte da visão”, refere, explicando que, mesmo assim, lhe foram impostas algumas limitações. Não pode andar a mais de 80 quilómetros à hora e nem conduzir na auto-estrada. Há tempos escreveu para a Direcção Geral de Serviços de Viação a perguntar se seria o condutor mais antigo do país mas não obteve resposta. “Estou convencido que não há ninguém com a minha idade a conduzir”, remata.

De facto, tirou a carta em Leiria (onde tinha família), corria o ano de 1946. Tinha 26 anos Na altura, não existiam escolas de condução mas sim indivíduos com autorização para ensinar. Foi o senhor Pinto, “pessoa já de certa idade”, que o ensinou. Não havia a parte teórica, apenas a parte de condução. Praticou durante 20 lições. Chegou o dia em que o examinador se deslocou a Leiria. Joaquim Braz das Neves julgou que ia ficar mal no exame. “Fiz uma condução perfeita mas quando vou a estacionar de marcha-atrás o carro subiu o passeio. Pensei para comigo que já estava arrumado mas não”, conta a rir. Os carros, na altura, trabalhavam à manivela e quando estava frio custavam a pegar. “No Inverno era um problema para o carro pegar. Um dia estava aborrecido e com a manivela parti dois faróis”, recorda.

Uma vida na estrada

Joaquim Braz das Neves nasceu numa aldeia de Tomar, “filho de gente pobre e com mais seis irmãos”, perto da Estação de Chão Maçãs-Gare, freguesia de Sabacheira, já a caminho de Ourém. Começou a trabalhar aos oito anos e teve muitos empregos. “Agradava-me qualquer coisa que me aparecia”, conta a O MIRANTE recordando que, em certa altura, não tendo trabalho comprou uma caixa de engraxador mas que não chegou a usar. “Á noite tornei-a a vender porque tinha arranjado emprego”, recorda.

Foi, por exemplo, praticante de farmácia, empregado de mercearia, cobrador de bilhetes de autocarro e estafeta. Trabalhou no Algarve e numa firma de acessórios para indústria Vila Nova de Gaia e, mais tarde, tornou-se vendedor de peças e ferramentas automóveis. “Fiz o país do norte ao sul. Em 20 anos devo ter dado cem voltas ao país. Penso que, ao longo da minha vida, fiz mais de 1.500.000 quilómetros”, conta. Acabou por se estabelecer no Entroncamento onde abriu uma loja de acessórios de automóveis. Foi aqui que conheceu a esposa, sua empregada de escritório. “O pai dela quando soube que namorávamos tirou-a de lá e passou a trabalhar em casa”, conta. Não valeu de nada pois casaram ao fim de ano e meio de namoro. Ele tinha 31, ela 20. A cumplicidade do casal, que teve dois filhos, é notória. “ Se chegar a 8 de Abril faço 90 anos. Estou convencido que chego lá”, brinca. “Chegas, chegas”, entoa Fernanda com um enorme sorriso. Nesse dia, muito provavelmente, irão dar um belo passeio de carro.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Embarcações do “Ti Fontes” dão mote a Museu da Pesca em Ortiga



Homenagem a Manuel Pires Fontes juntou uma centena de pessoas na Barragem de Belver.



A homenagem que o povo de Ortiga, Mação, fez no último domingo, 3 de Janeiro, a Manuel Pires Fontes - “o senhor dos Barcos” como alguém um dia lhe chamou – serviu de pretexto para anunciar o Museu das Artes da Pesca Tradicional de Ortiga onde vão ser perpetuados dois picaretos (embarcações típicas de Ortiga) por si construídos. Uma ideia que já tem cerca de cinco anos, tempo dedicado à recolha de algum espólio, mas que pretende agora ganhar um novo fôlego. A iniciativa, organizada em conjunto pela Associação “Os Amigos da Estação de Ortiga” e pela Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga, juntou cerca de uma centena de pessoas na Barragem de Belver (Ortiga) numa tarde de chuva miudinha.

O futuro espaço museológico deverá ser implantado num terreno, ainda em localização e com custos indefinidos, mas seguramente dentro da freguesia de Ortiga, a mais pequena do concelho de Mação. O objectivo passa por preservar as tradições locais, aquelas que passavam de pais para filhos. Como por exemplo, a arte de construção dos picaretos. Estas embarcações são construídas artesanalmente e uma das suas características mais curiosas passa pela acentuada curvatura da proa. Para lhe moldar a forma o calafate (nome que se atribuiu ao construtor de barcos) recorre a uma técnica ancestral que utiliza a água e o fogo. Para concretizar o projecto, os dinamizadores pedem apoio à Câmara Municipal de Mação para que, através dos últimos fundos comunitários disponíveis, comparticipe a aquisição do terreno com vista à construção do espaço museológico que, para abranger peças em tamanho original, terá que ser bastante espaçoso. Presente na cerimónia, o vice-presidente da autarquia, Vasco Estrela (PSD), assegurou que a câmara tudo vai fazer para que “este anseio das pessoas de Ortiga seja uma realidade dentro de em breve”.


reportagem integral publicada na edição de 07 de Janeiro de 2010

“Puseram em cima da festa do Natal uma outra realidade: a festa do consumo”


Frutuoso Duarte Matias, 70 anos, é pároco de Tomar há quatro anos. Tem um discurso muito translúcido e emite opiniões que são, muitas vezes, uma pedrada no charco. Pessoa reservada, assume que não gosta de dar entrevistas e só após alguma insistência abriu uma excepção para conversar com O MIRANTE. Uma conversa que decorreu na sua sala de trabalho, na igreja de São João Baptista, numa tarde do único dia de folga semanal, a segunda-feira.


Estamos no Natal. O que acha da frase tantas vezes repetida nesta época de que “O Natal devia ser todos os dias”?
Acho muito bem desde que se entenda que o espírito de Natal é todos os dias. Mas o Natal é o nascimento – Natal significa nascimento – de uma pessoa muito concreta. Jesus de Nazaré que o povo de Israel, onde nasceu, reconheceu como o Messias e o enviado de Deus para dar a boa nova do amor de Deus a todos os homens. Nesse sentido, O natal é um acontecimento histórico de um dia concreto.

Há dúvidas em relação à data exacta do seu nascimento…Não sabemos exactamente o dia em concreto quando Ele nasceu. Os antigos não davam muita importância ao dia do nascimento. De resto, o calendário, quando Cristo nasceu, não era como o nosso. Não havia o dia 25 de Dezembro. A igreja escolheu o dia 25 de Dezembro porque era uma festa que já existia - a Festa do Sol Nascente – e como vemos que Cristo é que é o Sol, a luz que guia os homens celebramos o seu nascimento no dia em que o sol começa outra vez a crescer. Há um grupo de cristãos, mais do oriente que celebra o Natal uns dias depois. A 6 de Janeiro, o nosso dia de Reis.

Sente que no Natal as pessoas aproximam-se mais da fé e da igreja? Nota a igreja mais cheia?
Já foi mais. Hoje as pessoas celebram tudo muito individualmente. Preferem o seu lar, a sua família. Onde têm conforto, aquecimento, tudo de bom… As pessoas, em tudo na vida social, cada vez são mais (pausa) – eu não queria dizer mas … – são mais egoístas talvez e isolam-se muito mais. Celebram muito poucas coisas em conjunto. É por isso que hoje, mesmo no Natal, há menos pessoas nas igrejas do que há uns anos atrás. As pessoas enchem-se muito com as coisas que têm em casa e ficam-se por aí. Não dão um sentido cristão explícito, religioso a este acontecimento…

Á missa do galo vão mais pessoas mas por moda…Não muitas e as que vão, fazem-no por tradição. Outras vão também por um bocado de poesia. Mas também há quem vá por fé e por um sentimento religioso, infelizmente nem sempre muito esclarecido. Mas alguma coisa há…

Entrevista completa publicada na edição de 23 de Dezembro

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Natal de Corvelo de Sousa




O presidente da Câmara de Tomar teve um Natal com neve até aos seis anos, na Serra de Leomil.

De todas as prendas de Natal que recebeu Corvelo de Sousa, 62 anos, actual presidente da Câmara Municipal de Tomar, elege uma caneta “de qualidade” que a mãe lhe ofereceu há vinte anos. É com esta – e tira-a do interior do casaco para a mostrar - que ainda assina os inúmeros despachos e documentos no exercício das suas funções. “É uma caneta que acho bonita e que a minha mãe sabia de que eu gostava porque perguntou à minha mulher. Ainda hoje tem a sua utilidade”, aponta.

Casado mas sem filhos, o Natal para Corvelo de Sousa é, sobretudo, uma paragem de calendário que aproveita para o reencontro com a família e amigos. “É interessante juntarmo-nos com um grupo mais alargado no Natal”, aponta. Costuma passar a noite de Natal no aconchego do lar. Janta e passa o serão com a família. Em seguida abrem os presentes e, pouco depois da meia-noite, termina a festa. “Não temos tido o hábito de ir à missa da meia-noite mas é uma coisa que eventualmente vou retomar”, revelou o presidente da Câmara Municipal de Tomar numa conversa que decorreu no seu gabinete de trabalho.

O frio que se faz sentir nesta altura leva-o a ficar à lareira, aproveitando a pausa para ler. O autarca não liga muito à ementa natalícia nem faz questão de comer o bacalhau com todos ou o peru assado. Mas há algo que não falta em cima da mesa e que até ajuda a confeccionar acompanhando o momento da cozedura: as fatias de Tomar.

A árvore de Natal que tem em casa consiste numa pernada (ramo) de um pinheiro que sobrou de uma operação de limpeza e confessa que “não se mete” na decoração, preferindo deixar essa missão para a esposa. As prendas são compradas em cima da hora mas tenta saber o que as pessoas querem para comprar coisas adequadas ao gosto das pessoas, tentando surpreender os outros.

Corvelo de Sousa viveu até aos seis anos na Serra de Leomil, Moimenta da Beira, e diz que nunca acreditou no Pai Natal. “O pai natal era uma realidade que quando era pequeno não era muito palpável, não é como hoje. Havia o menino Jesus e os Reis Magos e é isso que contava”, admite confessando que ainda hoje faz o presépio lá em casa. Nunca foi uma criança de pedir brinquedos e preferia ser surpreendido no momento em que desembrulhava o seu presente. Dos Natais passados na serra recorda sobretudo “que tinha muita neve” e de um frio que não tem a ver com o Natal. “Com nove graus negativos íamos todos à missa do galo”, lembra. O autarca veio viver para Tomar quando entrou na segunda classe.

No dia 25 de Dezembro, Corvelo de Sousa não trabalha mas diz que o telemóvel não pára de tocar. O ano passado perdeu a conta ao número de mensagens de Natal - “mais de cem de certeza” - e faz questão de responder, também por escrito, às mensagens que recebe. Gosta das iluminações de natal mas não fica mais emotivo nesta época. “O Natal dentro do ano litúrgico é um momento muito sensível e ligado à família mas não me deixa, de todo, nostálgico”, aponta. Até porque subscreve o ditado popular: “O Natal é sempre que um homem quiser”.

Alunos de de Fotografia acampam em protesto no IPT

Para o presidente do Instituto Politécnico de Tomar a acção não tem uma base justificativa.

Cerca de 20 tendas de campismo estão montadas no átrio principal do Campus do Instituto Politécnico de Tomar desde as oito da manhã da última segunda-feira, 14 de Dezembro. Os alunos da licenciatura em Fotografia da Escola Superior de Tecnologia (ESTT) reivindicam mais materiais e infra-estruturas através de um protesto “silencioso, pacífico e ordeiro” mas que dá nas vistas uma vez que foi montado um autêntico acampamento em frente departamento do curso. “Um flash para 129 alunos. Mais Investimento. Melhor Educação” é uma das frases de ordem numa faixa pintada. No entendimento dos cerca de 90 alunos que aderiram ao protesto e por isso estão em greve às aulas, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior deveria atribuir verbas extra no sentido de ser adquirido mais material de modo a assegurar o bom e normal funcionamento das aulas.

Mas para o presidente do Instituto Politécnico de Tomar, Pires da Silva, esta acção de protesto não tem “justicação nenhuma” até porque as aulas têm decorrido com absoluta normalidade e sem qualquer congelamento das actividades. “Não entendo a posição dos alunos até porque avançaram para o protesto sem me avisarem. Soube desta acção através do comunicado que me foi enviado pela Polícia”, disse a O MIRANTE garantindo que “o IPT tem feito tudo o que pode pelo curso de Fotografia”. Pires da Silva critica a atitude dos alunos que participam no protesto, uma vez que considera que estes deveriam tentar resolver os seus problemas com diálogo e não com manifestações. “O apoio que tenho é para dividir pelos 23 cursos do Instituto Politécnico de Tomar e não apenas por um”, salienta. Mesmo reconhecendo que com este protesto, os alunos não queiram atingir directamente o instituto que dirige, Pires da Silva considera que este tipo de acção acaba sempre por destabilizar o ambiente na instituição de ensino.

Entretanto, os alunos encontram-se a preparar um abaixo-assinado onde constam todas as suas reivindicações e pretendem ainda que a direcção do IPT pressione o Ministério de Educação no sentido de garantir as mais verbas para “o único curso superior público de fotografia do país”.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Idosos de Tancos vão ao médico em carrinha da junta



Idosos são transportados e acompanhados ao médico, gratuitamente, numa carrinha de cinco lugares comprada pela Junta de freguesia. Podem ainda pedir ajuda para que lhes paguem as facturas da água, luz, telefone ou gás.


Desde 1 de Junho que a população mais velha de Tancos, Vila Nova da Barquinha, conta com uma ajuda preciosa: a Junta de Freguesia, liderada por Manuel Pequito Cardoso (PS), assegura o transporte, gratuito, a pessoas com mais de 60 anos que necessitam de ir ao médico e têm mais dificuldades nessa deslocação ou de pagar, por exemplo, facturas de água, telefone, luz ou gás. Nesta última situação, se o utente não quiser sair de casa, entrega a factura com o dinheiro e pode ficar descansado que a funcionária da junta, Natália Sofia Santos, 30 anos, dá conta do recado. A carrinha só não serve para levar os idosos às compras ao supermercado.


Na freguesia de Tancos residem cerca de 450 pessoas e mais de metade tem idade superior a 65 anos. “Foi a melhor coisa de que o senhor presidente da junta se podia ter lembrado” contou ao nosso jornal Hortênsia da Conceição Lopes, 69 anos, que já utilizou os serviços da carrinha por cinco vezes, três das quais para ir ao médico. Antes, esta habitante costumava percorrer cerca de 3,5 quilómetros a pé até Vila Nova de Barquinha, enchia-se de coragem e era pelo próprio pé que também regressava.


A funcionária da Junta visita todos os idosos duas vezes por semana para relacionar as suas necessidades. O objectivo, segundo Manuel Cardoso, é tão só ajudar todos, independentemente da sua situação socioeconómica, os que não tem transporte ou familiares por perto que os apoiem nesse sentido. Para tal, a Junta de freguesia adquiriu, sem qualquer comparticipação, uma carrinha (em segunda mão e com 30 mil quilómetros) de cinco lugares, no valor de 12 mil e 300 euros.


A ideia surgiu em meados de Maio, após uma reunião que envolveu a Câmara de Vila Nova da Barquinha, Juntas de Freguesia, representante da Segurança Social e da Santa Casa Misericórdia, que se juntaram para delinear um projecto de apoio a idosos. “Saímos de lá com uma mão cheia de nada. Mais tarde, em conjunto com o meu tesoureiro, tivemos esta ideia uma vez que andámos a auscultar a necessidade das pessoas”, explica o autarca a O MIRANTE.


Manuel Cardoso fez um pedido ao Centro de Emprego no sentido de lhe enviarem uma pessoa, “com carta de condução”, para que fosse possível dar seguimento ao projecto que também apresentou a esta instituição. A escolhida foi Natália Sofia Santos, que o autarca considera ser a pessoa com o perfil certo para exercer este tipo de funções. Cabe, portanto, ao Centro de Emprego pagar o vencimento desta funcionária, suportando a Junta de Freguesia apenas uma percentagem (20%) do seu vencimento, o seguro contra acidentes pessoais e subsídio de alimentação. “De outro modo não poderíamos implantar isto uma vez que representava uma despesa de 10 mil euros por ano”, considera o autarca.

“Alguns idosos choram de alegria. Estão contentes e ficam admirados de não pagar nada”, conta Manuel Cardoso, que preside os destinos da Junta há 12 anos consecutivos. O autarca anuncia que o próximo projecto passa por transformar o antigo edifício da escola primária num centro de convívio para idosos e, simultaneamente, albergue da juventude para acolher grupos de jovens que venham visitar a região.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Multinacional em Riachos manda 42 trabalhadores para o desemprego



Intenção foi comunicada na terça-feira, 24 de Novembro e, segundo a administração da Univeg, prende-se com o aumento da concorrência.

A administração da Univeg, uma multinacional de transformação e distribuição de produtos alimentares com sede em Riachos, Torres Novas, confirmou a intenção de despedir 42 pessoas, a maioria mulheres, dos 154 trabalhadores, que trabalhavam na “4ª Gama e de Embalamento e distribuição de frutas e legumes frescos”. O anúncio foi feito na última terça-feira, 24 de Novembro, data em que, segundo o apurado por O MIRANTE, administração, trabalhadores e um representante do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio estiveram reunidos no sentido de negociar as condições de saída dos trabalhadores.

A Univeg pertence a um grupo multinacional com sede na Bélgica que produz e comercializa produtos como sopas e saladas lavadas e prontas a consumir. A medida é justificada com base no aumento da concorrência. “Recentemente, as condições de mercado deterioraram-se, quer pelo aumento da concorrência quer pela alteração da estratégia de compra dos seus maiores clientes”, apontam num comunicado enviado a O MIRANTE na tarde de terça-feira.

O mesmo documento atesta que, apesar dos esforços desenvolvidos pela administração e trabalhadores no sentido de melhorar os resultados, através do controlo de custos, do desenvolvimento de novos produtos e da procura de novos mercados, “a rentabilidade da produção está de tal forma ameaçada, que a Administração da Univeg Portugal não tem outra alternativa”. A restante actividade, ou seja, a prestação de serviços de Logística (Frescos, Congelados e Peixe Fresco), em conjunto com a importação directa e a Exportação de produtos Portugueses, continuam a sua laboração normal. De acordo com a administração, o processo de encerramento será faseado gradualmente durante os próximos meses.

Em comunicado, o PCP de Torres Novas lamenta o despedimento colectivo, medida que consideram que vem agravar a situação social no concelho sendo legítimas as dúvidas quanto ao futuro da própria UNIVEG e portanto, dos restantes trabalhadores. “A situação da Univeg vem juntar-se a outras situações de empresas com graves dificuldades económicas no concelho, nomeadamente na Companhia de Torres Novas Fiação e Tecidos”, sublinham os comunistas torrejanos.

Receberam factura de 3.300 euros de água para pagar e não sabem onde a gastaram



Família carenciada vive do rendimento mínimo e corre o risco de ficar sem água por não poder pagar.

Uma família carenciada residente no Bairro do Património dos Pobres, em Marmelais, Tomar, recebeu uma factura de água no valor de 3.299,89 euros no passado mês de Setembro. Posteriormente, recebeu outra factura no valor de 192,37 euros, acompanhada com um aviso de corte no fornecimento com data de 19 de Novembro. Na tarde da passada segunda-feira, a família visada preparava-se para responder para suspender o corte.

A família, que habita nesta casa há 11 anos, não compreende o valor astronómico da factura. “Só uso água para fazer comida, tomar banho e lavar a roupa”, explicou a O MIRANTE Paula Gândara, que vive na casa com o companheiro e três filhos menores de 9, 14 e 16 anos. “Não posso tirar o comer da boca dos meus filhos para pagar uma coisa destas”, atesta, desesperada com a eventualidade do corte de água. Depois de ter recebido a factura, Paula Gândara contratou um técnico particular mas este não encontrou nenhuma anomalia no contador nem quaisquer indícios de rotura de canos de água. A munícipe não tem por hábito registar as leituras de contador mas desde que recebeu esta factura já fez este registo por três vezes e os mesmos não fogem ao consumo normal.

Na reunião de Câmara de Tomar, os vereadores do grupo “Independentes por Tomar” alertaram o executivo para este caso social. Recomendaram a intervenção directa do presidente da Câmara no problema e pediram a revogação imediata da decisão de interrupção do fornecimento de água à família e uma intervenção técnica dos SMAS para apurar o que deu causa a tão estranha facturação. “É evidente que tal facturação não pode corresponder ao consumo de água efectuado por esta família, pelo que, se torna inadmissível que tenham sido recentemente notificados do corte do fornecimento de água em 19 de Novembro, caso não paguem a factura”, ressalvam os vereadores.

O MIRANTE contactou com Luís Vicente, presidente do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento (SMAS) de Tomar que explicou que, neste caso particular, ainda não foi confirmada a existência de uma rotura de água que possibilite uma redução da tarifa. “Os serviços vão ter que verificar a situação e cabe à administração que decide o que fazer nestes casos”, apontou o responsável. Luís Vicente aconselhou a família visada a fazer uma exposição ao SMAS, com base na carta de aviso de corte recebida, de modo a que os serviços consigam averiguar o que realmente aconteceu. “Quando há roturas confirmadas os consumidores pagam os escalões mais baixos. Há formas de ajudar os consumidores que tiveram este tipo de acidente. A família não pode ser penalizada por um consumo que não fez”, atesta.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Os lugares revisitados por uma jornalista

Cada vez que passo em Gouxaria, Alcanena, o pensamento foge-me para aquele casal que perdeu o filho de 20 anos, pouco tempo antes do Natal de 2008, numa recta mal calculada em plena Serra de Santo António. Antes de me contar o que aconteceu, uma mãe banhada em lágrimas insistiu em mostrar-me os objectos do filho. Respeitei o seu momento de luto e acabei por passar uma tarde de domingo chuvosa com alguém que não conhecia de lado nenhum mas que partilhou comigo toda a dor que sentia. Cada vez que vou a Alqueidão de Santo Amaro, Ferreira do Zêzere, lembro-me que ali mora, numa casa térrea com um bonito jardim, uma jovem mãe que deu o fígado ao seu filho para que este não perdesse a vida e o mima com todas as forças que tem. Sempre que passo na A23 vinda de Abrantes para Torres Novas sei que, algures por ali, morreu num acidente de automóvel uma jovem numa madrugada de temporal. E reduzo a velocidade por momentos.

Por mais que não queira, acabo sempre por revistar os lugares por onde passo, e volto a passar, com as reportagens que mais marcaram e que o tempo não apaga como faz com muitas outras. Pergunto-me se isto também acontece com os meus colegas de profissão? Ainda não sei porquê mas a memória teima em guardar mais histórias tristes do que alegres. Por isso ainda não esqueci cada vez que passo no Tramagal, Abrantes, que ali mora uma mulher com a filha de sete anos numa barraca sem água nem luz à espera que vague uma habitação social. Ou que vi homens de barba feita a chorar na primeira greve que se realizou na construtora João Salvador, em Tomar.

Mas, nem tudo são tristezas e há também lugares que me despertam sorrisos numa segunda visita. Sempre que regresso ao centro histórico de Abrantes é impossível não me lembrar de que já ali estive com um burro naquele que foi o protesto mais insólito que acompanhei. E como não me lembrar dos dois sacos de laranjas que o senhor Serafim Luís Homem, morador em Limeiras, Vila Nova da Barquinha, fez questão de me oferecer quando o fui ouvir tocar violino em sua casa? Do espirituoso “Encontro de Gémeos”, organizado pela paróquia da Sagrada Família, que fui assistir no Entroncamento ou da festa que o grupo de pessoas que se juntam todos os anos para cantar os Reis em Montalvo, Constância, fez quando viu a carrinha de O MIRANTE a chegar? São estas experiências tão distintas, e vividas quase ao ritmo diário, que fazem com que ainda continue a achar que tenho o privilégio de ter uma das profissões mais bonitas do mundo.

Crónica publicada na edição de aniversário 16 de Novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Uma história de amor que nasceu no autocarro - parte 2

Há alguns meses o Pedro, que já conhecia de um trabalho anterior, perguntou-me se me poderia contar a sua história de amor. Acedi conversar com este simpático casal numa tarde de sábado, no jardim do Castelo de Abrantes, sem saber muito bem o que iria ouvir e se acediam publicar a história no jornal onde trabalho.

A história foi publicada e O MIRANTE foi contactado por um elemento de uma equipa de produção de um programa de televisão. Na terça-feira viveram um momento emocionante. Felicidades!


http://sic.sapo.pt/online/video/programas/companhia-das-manhas/2009/11/o-amor-esta-no-ar10-11-2009-135137.htm

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

“Quero pilotar helicópteros até que me o deixem fazer”


Natural de Tomar, Mónica Martins, 32 anos, é a única mulher piloto da Marinha Portuguesa, onde se encontra há 15 anos, tendo realizado uma especialização em helicópteros em 2004. Solteira e sem filhos sabe que a sua actividade não é das mais fáceis de conciliar com a vida pessoal. Actualmente ocupa o posto de Tenente e integra os destacamentos da esquadrilha de helicópteros, a postos para qualquer situação de emergência.

Como é que surgiu o mundo dos aviões na sua vida?

Eu não tinha a mínima ideia do que ia fazer a nível profissional. No 12.º ano chegaram à escola uns panfletos para concorrer à Força Aérea e resolvi concorrer com outra amiga. Fizemos os testes em Abril mas chumbei para pilotagem nos testes psicométricos. Regressámos à escola e pouco tempo depois outro colega convidou-nos a concorrer para a Marinha. Não fazia a mínima ideia ao que ia. Acabei por ser a única a conseguir entrar.

E que provas teve que fazer?

A média de entrada calcula-se da mesma forma que para a universidade. Mas tive que realizar provas médicas, testes psicomotores, psicológicos e testes físicos. Na Marinha os testes são feitos na Escola Naval acabei por fazer logo muitas amizades. Gostei do que vi. Os meus pais matricularam-me, entretanto, no curso de Matemática, via ensino, em Coimbra, por precaução. Penso que um dos grandes motivos que me levou a optar pela Marinha foi também porque os testes para a Força Aérea são feitos no Hospital do Lumiar. Escolhi a classe Marinha, que é a mais geral onde passei cinco anos (quatro teóricos na escola e um de estágio). Completei um ano como guarda marinha e três como segundo tenente, já a navegar. Entretanto abriu o concurso e entrei para Piloto Naval. O curso de pilotagem foi dividido entre Ota, Beja e Montijo. Concluí-o em Outubro de 2006.

E como é que foi voar pela primeira vez?

Já tinha o bichinho de voar até porque tinha concorrido à Força Aérea mas nunca tinha andado de avião. Começamos a parte de voo na Base de Beja, que pertence à Força Aérea. Depois de nos mostrarem o funcionamento do avião, dão-nos logo o comando para as mãos. Foi emocionante. É difícil mas nada que não se aprenda.

Como é que é ser a única mulher piloto naval na Marinha Portuguesa?

Ninguém estranha o facto de ser uma mulher a ocupar aquele cargo, pois já me encontro na Marinha há 15 anos. Já conhecia os meus camaradas porque andei muitas vezes nos navios, onde exercia outras funções. Penso que me tratam de igual para igual. Não há diferenças.


Qual foi a sua experiência mais marcante num helicóptero naval?


Foi durante uma missão que visava o combate à emigração ilegal e tráfico de ser humanos nas zonas do Senegal e Guiné e Estreito de Gibraltar e combate à pirataria na zona da Somália. Quando estávamos a passar no Mar Vermelho, junto ao Iémen, houve necessidade de prestar auxílio a militares que estavam numa ilha que entrou em erupção. Foi uma situação completamente inesperada mas que acabou por correr bem, embora dois militares nunca tivessem aparecido.

Até que idade é que pode andar nos helicópteros?

Não há uma idade imposta mas a certa altura damos a vez a outras pessoas e somos destacados para outras funções. É natural que isto aconteça no decorrer normal de uma carreira nas Forças Armadas.

Passa muito tempo longe da família. Nessas alturas sente o peso da profissão?

Confesso que já perdi alguns casamentos e festas de família por me encontrar fora do país. Não é fácil conciliar esta família com a profissão mas se estivesse mal, mudava-me. Estou bem onde estou. Esta foi a minha opção de vida, nada me foi imposto. Antes de tomar esta decisão informei-me e já sabia que o meu futuro ia ser assim.

A Marinha recebe formação específica quando tem que colaborar com outras Forças Armadas em missões internacionais?

Existem navios específicos para essas missões internacionais que são as fragatas. Quem vai para essas fragatas tem formação específica mas esta incide mais na operação do navio que tem que estar sempre pronto para integrar uma missão nacional ou internacional. Baseamo-nos sempre na doutrina NATO que inclui procedimentos comuns que existem para todos os países da NATO.

Tem capacidade de abrir fogo no helicóptero do navio?

Sim. Temos dois tipos de armas. Torpedos, que são armas que usamos contra submarinos e metralhadoras para combate à droga e pirataria mas que são utilizadas sempre com o primeiro objectivo de fazer parar estas embarcações.

As missões de salvamento que fazem são só no ar mas também em terra?

Há o salvamento marítimo que, em águas nacionais, é feito só com os nossos navios e os meios aéreos da Força Aérea. Depois existem as catástrofes naturais, como as cheias ou fogos onde os três ramos das forças armadas são chamados. Por exemplo, quando numa situação de cheias se vêem os botes é a Marinha a actuar. Mas, normalmente, as operações em terra são com os Fuzileiros, a não ser que a população em risco se localize junto ao mar. Treinamos exaustivamente as operações de “não combatentes” com o objectivo de prestar ajuda humanitária a civis. Nestes casos, o navio tem sempre capacidade de disponibilizar parte da guarnição e material que tem a bordo e prestar auxílio à povoação costeira.


Tem contactos esporádicos com outros pilotos da Força Aérea?


Todos os dias.


Nota-se alguma rivalidade por pertencerem a diferentes ramos das forças armadas?


Não, pelo contrário. Nós somos formados na Força Aérea. A esquadrilha de helicópteros da Marinha está dentro na base aérea do Montijo. Somos camaradas. A relação entre Marinha e Força Aérea é muito boa.

Já encontrou alguma explicação para que mais senhoras não estejam interessadas em ser piloto de helicópteros?

Simplesmente porque não há camaradas ainda que possam concorrer. Fui a primeira a ter hipótese de entrar para o curso de pilotagem em 2004. Dai para cá ainda não houve nenhuma mulher que estivesse nas condições de concorrer. São muito poucas as alturas em que se pode concorrer para ser piloto. Das únicas mulheres que conheço que podiam concorrer, uma escolheu Hidrografia e duas Artilharia. Também não há necessidade de abrir concurso para pilotos todos os anos. Quando concorri havia 20 candidatos e eu era a única mulher. Tive a sorte de, entre os 8 que foram apurados, de ser a mais graduada.

entrevista integral publicada na edição de 29 de Outubro

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O dia em que o burro Jerico foi um herói em Abrantes

Nota: Esta foi talvez uma das reportagens mais insólitas que já me calhou fazer.



Empresário leva animal em protesto para a frente da Câmara Municipal. Asno só não entrou dentro do edifício porque se assustou com as portas envidraçadas.

“Jerico foste um herói”. Foi deste modo que o empresário Jorge Dias terminou talvez o protesto mais original a que Abrantes alguma terá assistido nos últimos tempos. O sol tinha raiado há pouco tempo na manhã da passada sexta-feira, 21 de Agosto, quando o empresário se levantou e tratou dos animais na sua quinta localizada em Chainça, a cerca de seis quilómetros da cidade. Mas houve um deles que teve direito a um pequeno-almoço reforçado: O burro Jerico. Uma milha de farinha e muita palha. Às oito da manhã, fez-se ao caminho com destino traçado pela inconformidade do seu dono: um protesto em frente à Câmara Municipal de Abrantes.
Jorge Dias, homem com uns portentosos cem quilos, optou por não sobrecarregar o animal que considera de família e fez toda a jornada a pé. Não que ele não aguentasse mas o problema era que se teria que descansar pelo caminho. O burro, também ele bem constituído, apresenta um pelo lustroso, hoje libertado do peso da albarda. Fez a alegria de muitas crianças na primeira festa que se realizou no Parque de São Lourenço, em Abrantes e chamou a atenção do empresário que, de imediato, o comprou a um agricultor da região. Já passaram dez anos e Jerico continua a ser um dos animais preferidos, o único burro entre os mais de trezentos animais (entre cães, patos e ovelhas) que Jorge Dias diz possuir.
Perto das nove horas da manhã, dono e burro entram no perímetro urbano. O animal sacia a sede na Praça Raimundo Soares, em frente aos Paços do Concelho. A presença do animal em pleno centro histórico agita as atenções. ”Quanto custa este animal?”, alguém pergunta. Jorge Dias responde que não está à venda. É de estimação. Insistem em saber. “Talvez cem contos mas nunca o vendiam”, assegura. Avança-se até à Praça Barão Batalha, por entre pessoas nas esplanadas e lojas de comércio, algumas incrédulas ao que assistem. As crianças deliram com o animal. Os mais velhos recordam tempos idos em que o mercado trazia muitos vendedores montados em burros até à cidade.

A jornada vai a meio e Jerico lembra-se que está na altura de adornar com as suas fezes as ruas empedradas da cidade. A primeira descarga intestinal sai rápida, enquanto o dono o prende a mais uma fonte. “Não faz mal, os serviços (de limpeza) da câmara existem para alguma coisa”, aponta Jorge Dias sem uma pinga de preocupação. A comerciante da loja de roupas em frente é que não acha muita piada. “Isso agora vai ficar aí o dia todo”, reclama. O burro bebe mais água da fonte e contorna a praça, guiado pelo dono, agora por um caminho ainda mais estreito.

Mais à frente, o protesto ganho relevo quando encontra Isilda Jana, vereadora da cultura na autarquia. O insólito da situação quase que a deixa sem reacção. A voz de Jorge Dias eleva-se. Acusa a câmara de, entre outras coisas, boicotar os seus projectos empresariais. A plateia de improviso acaba por sair apressada. Jorge Dias não quer esperar mais e segue firme em direcção aos serviços da Divisão de Urbanismo da Câmara, a poucos metros. As pessoas sorriem à passagem do animal. Fazem comentários diversos. “É para mostrar que há por aqui gente mais burra que este burro”, justifica a quem pergunta.

Algumas dezenas de pessoas, a maioria homens reformados, concentram-se na Praça para assistirem de camarote à cena. Jorge Dias estava decidido a entrar com o animal dentro do edifício mas, desta vez, Jerico não colabora e emperra. O dono insiste. Jerico, burro teimoso. Reforça a corda mas mesmo assim o animal mantém a sua posição. As portas envidraçadas assustam-no. Acaba por atar o animal ao ferrolho de uma das três entradas possíveis. Lá dentro, os funcionários franzem o sobrolho ao que se passa mas continuam a fazer o seu trabalho como se nada fosse. Só a chefe dos serviços vem saber o que se passa e chama mais tarde a polícia que diz que nada pode fazer uma vez que o animal não está a perturbar o normal funcionamento dos serviços.
Durante duas horas, Jerico permanece impávido e sereno, debaixo de um sol escaldante, enquanto o dono escreve quatro queixas no Livro de Reclamações. Uma delas prende-se com o impasse do negócio da venda de um terreno em Abrantes para instalar o complexo médico-social “Ofelia Clube” onde poderia vir a ganhar 2,5 milhões de euros.

Jerico zurra algumas vezes e o dono diz que é por sentir a sua falta. Muitas pessoas aproximam-se, tiram fotografias mas poucas ousam tocar no animal que, entretanto, decide fazer outra descarga intestinal mesmo à porta dos serviços. A sirene dos bombeiros ecoa o meio-dia quando termina o protesto. “Valeu a pena?”. Jorge Dias diz que sim, apesar de ninguém com responsabilidades no executivo camarário o ter vindo questionar sobre as razões do seu protesto, adequado a alguém que considera já nada ter a perder. Antes de dar meia volta e regressar à quinta dá umas palmadinhas na cabeça do burro. Para o próximo, promete trazer os seus sete cães.

Publicada na edição de 27 de Agosto de 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Feira de Santa Iria contada pelos mais velhos




A feira de Santa Iria realiza-se em Tomar há mais de 300 anos e vem-se modificando de ano para ano. Fomos descobrir como era aqui há cinquenta anos.



“Já ouvi e vi, os palhaços passarem pelas ruas, distribuindo panfletos onde constam as suas principais atracções. As barracas de comes e bebes vão abrindo timidamente as portas, mostrando as mesas e bancos corridos, os pipos de vinho, os copos alinhados. As louceiras desembrulham cuidadosamente, as loiças, os bonecos, os santinhos, os belos penicos, decorados, com paisagens bucólicas, flores e até imagens piedosas”. É este o olhar que Maria Águeda Costa, 64 anos, doméstica, relança sobre a Feira de Santa Iria da sua meninice. Aquela que era iluminada “com uma luz fraquinha” e na qual eram penduradas nas bancas de roupa as samarras ribatejanas, com golas de raposa, e os safões, uma espécie de calças de pele, atacadas com cordões. Aquela em que os brinquedos de madeira, de lata, as bonecas de papelão ou celulóide, “enchiam de sonhos, as cabecinhas miúdas, de grandes olhos, arregalados pela cobiça, de tais tesouros”. Naquele tempo, “as mulheres, de grandes aventais, lenços, mais ou menos garridos na cabeça e xailes de lã (na Santa Iria já faz frio), tomavam conta da mercadoria, enquanto falam, de um modo cantante, que eu ainda conservo”, aponta desiludida com as luzes psicadélicas e a música ao vivo e gravada que ecoa no largo da feira.


A feira de Santa Iria realiza-se em Tomar há mais de 300 anos e vem-se modificando-se de ano para ano. Actualmente divide-se entre a Várzea Grande, onde são instalados os divertimentos e a Praça da República, onde tem lugar a Feira das Passas. No recinto do mercado municipal são montadas as tasquinhas de comes e bebes onde o frango assado é rei. Mas nem sempre assim foi. Que o diga Vítor Antunes da Silva, 60 anos, um cantoneiro reformado, que defende que a feira antigamente “era mais divertida e melhor”. Lembra-se, sobretudo da sardinha assada, que se vendia nos terrenos localizados em frente da Rodoviária, junto à Várzea Grande. O frango assado era petisco ainda desconhecido e só viria posteriormente. “Naquele tempo as pessoas compravam as sardinhas e depois iam-nas assar nas fogueiras que por ali haviam. Cada vendedor tinha uma fogueira”, contou. A sardinhada era sempre degustada na companhia dos pais e do irmão no dia em que escolhiam ir ao circo que, à época, era “grátis às damas”. A acompanhar a nova água-pé e gasosa para os meninos. A mãe comprava um pão de quilo na Padaria Mesquita (onde hoje funciona a Farmácia Central) para ajudar a compor o petisco.


Também a célebre feira das Passas está diferente. Conta Maria Águeda Costa que o dia 19 de Outubro era, por excelência, o dia da feira das passas. Munidas de seiras de palha ou, cabazes de verga, numa época em que os sacos de plástico não existiam, as senhoras rumavam à feira para comprar os belos frutos secos que no feriado de Todos-os-Santos, a 1 de Novembro iriam distribuir pelos meninos que pediam “O pão por Deus”. Os frutos secos que restavam seriam para no Natal seguinte enfeitar a mesa da Consoada.


A memória mais remota que José Antunes, 87 anos, retém da Feira de Santa Iria é do célebre “Poço da Morte”, divertimento que o levava à feira todos os anos. Já tinha mais de 20 anos quando viu, pela primeira vez, as acrobacias de mota que tinham lugar dentro de um poço de madeira. “Era um espectáculo grandioso que deixava toda a gente de boca aberta”, recorda. José Antunes recorda as filas enormes que se faziam junto “à barraca redonda que parecia com um moinho antigo” e onde um motard fazia manobras impressionantes.” Nunca o vi falhar”, recorda. E teve pena de não ter ido ao certame em 2006, quando o poço da Morte regressou à Feira de Santa Iria após muitos anos de interregno.


Fui muito feliz nos carrinhos de choque”

Pedimos a um jovem tomarense que nos contasse qual a sua melhor recordação da feira de Santa Iria enquanto criança. Luís Ribeiro, 34 anos, comercial conta-nos como foi feliz a andar de carrinhos de choque:




“Uma das coisas que mais me alegrava enquanto miúdo era a época da Feira de Santa Iria. As castanhas assadas, o ambiente que se proporcionava e claro está, os carinhos de choque. Há alguns anos atrás era um frequentador assíduo das pistas de carrinhos de choque da Feira de Santa Iria, que era uma loucura para qualquer miúdo da minha idade. Na pista tentávamos aprender malabarismos técnicos ao volante naqueles carrinhos que para nós eram a maior atracção da feira, ao som da onda musical debitada pelos altifalantes no tecto da pista. O intuito de cativar as raparigas estava também presente nas nossas mentes. Lembro-me perfeitamente de alguns casos em que se tivesse umas fichas para andar, a probabilidade de receber um beijinho era bem real. Naquele tempo não me era muito fácil obter as tão desejadas fichas mas fazia alguns sacrifícios para as conseguir e um desses era trabalhar nas férias grandes para juntar algum dinheiro. Ao microfone ouvia o DJ gritar: “As meninas não pagam… mas também não andam!”. Enfim recordar estes momentos faz-nos sorrir de saudade, levando-nos a viver boas recordações. Posso afirmar que fui muito feliz nos “carrinhos de choque”.

Publicado na edição de O MIRANTE a 15 de Outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

O engenheiro civil que gosta de coleccionar postais de pontes



Joaquim Canteiro tem mais de mil postais de pontes portuguesas e estrangeiras. A sua colecção já correu mundo e ganhou vários troféus, tendo recebido uma medalha da Federação Portuguesa de Filatelia pelas boas classificações obtidas.

Nunca calculou nenhuma ponte e já pouca esperança tem de o vir a fazer. Joaquim Canteiro, 53 anos, é engenheiro civil e colecciona, entre outras coisas, postais de pontes. Actualmente conta mais de mil “postais máximos” na sua colecção. São postais máximos aqueles que têm um selo e uma imagem no postal com a mesma ilustração, tendo o carimbo que incidir nas duas partes. Cerca de 250 encontram-se na Exposição Luso-Brasileira Lubrapex, que decorre até 11 de Outubro na Arena de Évora. “Já viajaram mais do que eu”, conta a rir o coleccionador que já perdeu conta ao número de exposições internacionais onde, ao longo dos últimos 25 anos, os seus postais estiveram. Rio de Janeiro, Sevilha, Granada ou Pequim, são algumas das cidades para onde postais já foram enviados, através da Federação Portuguesa de Filatelia, que atribuiu a Joaquim Canteiro uma medalha de Serviços Inestimáveis pelas boas classificações alcançadas nas exposições internacionais.

Joaquim Canteiro vive numa zona calma de Abrantes mas trabalha na Câmara do Entroncamento há mais de vinte anos. Começou por juntar selos em criança, por influência de um tio. Os postais, que são uma das modalidades da filatelia, vieram mais tarde. A filatelia tem vários ramos ou temas e a Maximifilia (postais máximos) são um desses temas. “É engraçado porque posso comprar os selos nos correios, arranjo os postais e faço as minhas próprias maximizações”, explica com entusiasmo. Por este motivo, alguns dos postais máximos que tem são peças únicas uma vez que foram feitos por si. Na sua casa tem ainda em muitas, mas mesmo muitas, gavetas, postais antigos e outros de outras temáticos como Aves ou, por exemplo, Paris. Também colecciona pacotes de açúcar.

O fascínio pelas pontes deriva da sua formação profissional. “Para um engenheiro civil as pontes são a estrutura mais atractiva”, justifica. Já tinha concluído o curso de engenharia civil quando começou a coleccionar postais com pontes, não se recordando do primeiro postal que teve. A sua colecção é organizada pelas características estruturais da ponte, classificando-as em pontes de vigas, de arco, de suspensão ou de aquedutos. “Comecei por juntar postais de pontes de Portugal mas, através da internet, comecei a arranjar postais de pontes de todo o mundo”, explica mostrando um dos últimos postais que conseguiu comprar e que representa a ponte do Bósforo, em Istambul, Turquia. “É importante porque liga a Europa a Ásia e porque já lá passei”, aponta orgulhoso. Muitos dos postais são adquiridos por trocas e chegam de todos os pontos do mundo. O contacto com os outros coleccionadores é feito, na maioria das vezes por internet e visita, regularmente, os sites de leilões como, por exemplo, o E-Bay para adquirir novos selos.

Questionado sobre qual a sua ponte preferida, Joaquim Canteiro tem dificuldade em escolher qual será embora reconheça que a Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, “é espectacular”. O engenheiro admite que já conhece quase todas as pontes de Portugal (à excepção de algumas no Norte) e interessa-se sempre por saber um pouco da história da sua construção e as suas principais características. Não tem por hábito fotografar e normalmente, antes de ir ao local consulta na internet a informação sobre a ponte que vai visitar. A colecção de Joaquim Canteiro tem para si um valor inestimável e preenche quase todos os seus tempos livres, de segunda a domingo. Um hobbie que conta com a compreensão da família habituada a vê-lo horas a fio de volta dos seus postais de pontes.

Publicado na edição de O MIRANTE a 8 de Outubro de 2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma história de amor que nasceu numa viagem de autocarro




Há quem proteja a sua privacidade a sete chaves. Pedro de Jesus, pelo contrário, quer dizer ao mundo que reencontrou em Sílvia o amor da sua vida.

Quem diz que não há vantagens a retirar do facto de não ter carro? Pedro de Jesus, 28 anos, vigilante do Hospital de Abrantes nunca considerou que tirar a carta de condução ou ter carro era uma prioridade para a sua vida. Foi esta ideia que o levou a conhecer Sílvia Fernandes, 24 anos, que trabalha no hotel Turismo de Abrantes, por mero acaso, no autocarro que diariamente apanhavam para o trabalho. Ele subia numa paragem, ela entrava mais à frente. Nunca foram apresentados mas trataram, após a troca de alguns olhares de resolver esse pormenor.

Foi em 30 de Janeiro de 2009 mas Pedro confessa que há pelo menos quatro meses que andava a arranjar coragem para se sentar a seu lado. “Dizíamos bom dia ou boa tarde apenas e mesmo quando em sentava perto dela era sempre sem segundas intenções”, recorda Pedro que se caracteriza como uma pessoa muito extrovertida. O tema das conversas assentava, sobretudo, na vida profissional. Ele falava, ela ouvia. No outro dia, invertiam-se os papéis.

De desabafo em desabafo cimentou-se uma relação de amizade. Trocaram de número de telemóveis, combinaram tomar um chá numa superfície comercial de Alferrarede e chegaram a ir fazer compras juntos, apenas como amigos. Mas pouco tempo demorou a dar-se o clique. “Ficámos a olhar fixamente um para o outro”, recorda Sílvia no dia em que aceitaram que havia mais qualquer coisa. O primeiro beijo, de fugida, foi no autocarro.

Não foi fácil para o casal aceitar o amor de volta nas suas vidas, fruto de más experiências que ambos viveram no campo amoroso. Ele esteve a viver em união de facto vários anos, relação da qual tem um filho de seis anos. Ela divorciou-se recentemente e tem um filho de três. “O que me aconteceu foi mágico”, confessa Pedro. “Eu amo esta mulher e não consigo imaginar a minha vida sem ela”. Sílvia sorri e revela que foi o olhar dela que a conquistou. Não foi fácil voltar a confiar em alguém mas não está arrependida, realçando a forte personalidade do companheiro.

Dois meses depois de se terem conhecido resolveram juntar os trapinhos e vivem debaixo do mesmo tecto. Românticos, todos os dias trocam prendinhas e até fizeram um diário do seu namoro onde colam os bilhetes trocados ou fotografias de momentos especiais. Para que a felicidade fosse completa bastava resolver um dissabor. Pedro conta com o apoio dos pais nesta nova relação mas o mesmo não acontece com Sílvia. “Tenho pena que assim seja e que se deixem influenciar por ideias dos outros”, aponta a jovem que gostava muito de voltar a unir a família. “O que mais me entristece neste momento é ser invejado por estar com ela”, reforça Pedro.

E se antes, voltar a casar e ter filhos estava fora dos planos de cada, hoje parecem não ter dúvidas de que é o próximo passo que querem dar. “Pretendemos casar e dar uma mana aos nossos filhos. Já escolhemos o nome e tudo: Clara”, revelam com um sorriso que só os casais apaixonados conseguem mostrar.

Publicado na edição de O MIRANTE de 24 de Setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Adoptou três crianças portadoras de deficiência mental e diz que se pudesse adoptava mais


Rosa Silva não sabe o que é ser mãe no ventre mas sabe, e muito, o que é ser mãe no coração.

As crianças deficientes abandonadas em instituições não fazem parte do conjunto de crianças que os pais adoptivos preferem e geralmente têm um destino diferente dos outros meninos que acabam por encontrar um lar. Maria Rosa Conceição Silva, 60 anos, natural de Abrantes mas há muitos anos a viver na vila de Constância fez a diferença na vida de Patrícia, 24 anos e dos gémeos Luís e Sérgio, de 19 anos. Os três sofrem de um ligeiro atraso mental mas, actualmente, são jovens completamente autónomos.
A conversa desenrolou-se na sala de sua casa, uma vivenda localizada junto à Escola Secundária de Constância, e em frente aos três jovens que dividiam a atenção entre a televisão e um mapa de estradas. Rosa Silva que adoptou ainda uma quarta menina, sem qualquer deficiência, e que hoje já faz uma vida independente.

Foram as circunstâncias da vida que a levaram a adoptar. O marido, de quem actualmente se encontra separada, não podia ter filhos e pelo que esta foi a solução que o coração de Rosa. Estava casada há três anos quando foi buscar a Patrícia, apenas com dois meses e meio, a uma instituição de Coimbra. Recorda que para conseguir adoptar a menina legalmente teve que lutar bastante e gastar “rios de dinheiro”. Os gémeos vieram alguns anos depois e reconhece que por serem portadores de um ligeiro atraso mental, o processo de adopção foi bem mais fácil. “Tinha uma prima que trabalhava com Manuela Eanes (Presidente do Instituto de Apoio à Criança) e fui buscá-los com quatro anos a instituição de Aveiro onde estavam internados”, recorda. Por sua vontade e não o facto de ter 60 anos, ainda adoptava mais.
Rosa Silva diz que foi o amor pelo próximo que a motivou a adoptar crianças diferentes. Sabia que não tinha uma tarefa fácil pela frente mas diz que luta pelas coisas “como uma leoa”. Ensinou-os a andar. Com eles repetiu vezes sem conta os exercícios para desenvolver a sua fala. “Temos que ser determinados naquilo que queremos”, acentua. Por isso, andou dois meses seguidos, em Rui de Moinhos (Abrantes) a ensinar o Luís e o Sérgio a subir a descer uma escada. A atravessar a rua, a aprender a reconhecer o barulho vindo dos carros e das motas. Ensinou-os a andar de autocarro mas chegou à conclusão que não vale a pena uma vez que não conseguem voltar sozinhos. “A pessoa se não quer ter trabalho com uma criança vai buscar um animal que é muito mais fácil. Com uma criança não pode ser assim”, explica. Na rua, foi muitas vezes alvo de comentários trocistas e discriminatórios mas que nunca deitaram abaixo a sua determinação.

Na sua casa diz não mudou um único móvel de sítio. Diz que os gémeos sabem fazer todas as tarefas domésticas, desde passar roupa até fazer a cama, mas é a Rosa que cabe tratar de alguns aspectos da sua higiene como cortar o cabelo, as unhas ou fazer a barba. Têm a ordem de que não podem abrir a porta a ninguém. Às vezes esquecem-se e levam um raspanete. Antes das refeições, a oração é sempre sagrada porque Rosa Silva sabe por experiência própria o que é passar privações.
Sempre rigorosa em relação à educação dos seus filhos, colocou-os numa escola de ensino regular. Nunca aceitou qualquer tipo de discriminação. “Uma vez vi que estavam a brincar fora da sala de aula em cima de um colchão e fui reclamar com a professora”, recorda não esquecendo a outra ocasião em que, vigilante como sempre, os apanhou a varrer o pátio da escola perante a passividade das auxiliares educativas. “Disseram-me que estavam ali para não perturbarem a aula. Mas onde está o amor e a dignidade?”, questiona. Chegou a escreveu ao governo a pedir professores de ensino especial para os seus filhos mas acabou por retirá-los da escola aos 17 anos. Actualmente frequentam o Centro de Reabilitação e Integração Torrejano (CRIT), em Torres Novas. O Luís está atirar o curso de cozinha e Sérgio o de agricultura. A patrícia, apesar de ser mais desenrascada do que os irmãos, também frequenta a instituição.

A vida de Rosa Silva foi tudo menos fácil. Nascida no seio de uma família humilde de quatro irmãos, começou a trabalhar com cinco anos, a caiar paredes com a mãe. Toda a vida trabalhou como mulher-a-dias até se estabelecer por conta própria, já depois de casada, gerindo um mini-mercado em Constância, aberto por debaixo da sua habitação. O negócio acabou por ir abaixo devido ao seu bom coração. “As pessoas vinham-me pedir fiado e eu dava tudo. Por pena, até deixava roubar debaixo dos casacos”, relembra. Da Segurança Social diz não receber nenhum subsídio especial por ter adoptado estes jovens, apenas o abono a que qualquer criança tem direito. Valem-lhe os rendimentos de alguns imóveis imobiliários que pôs a render.

Rosa Silva sabe que os três filhos vão depender dos cuidados de terceiros até ao resto das suas vidas. Por isso, quando notar que tem dificuldades em continuar a tê-los ao seu encargo considera a hipótese de os entregar aos cuidados do Tribunal. A união que existe entre todos salta a vista. No momento em que acedeu ser fotografada com os três filhos, os olhos de Rosa humedeceram-se enquanto coloca a mão no peito: “Somos todos muito amigos. Posso não saber o que é ser mãe no ventre mas sei o que é ser mãe, aqui, no meu coração”.


Crianças deficientes são as maiores rejeitadas no processo de adopção
Num artigo publicado em Junho deste ano, O MIRANTE dava conta que de todas as famílias candidatas a adoptar uma criança no distrito de Santarém, nenhuma pretendia ficar com uma criança deficiente. Segundo os dados da Secretaria de Estado da Reabilitação, o mesmo se aplicava aos menores que estão à guarda de instituições e possuem doenças graves. A dificuldade em arranjar pais para estas crianças é um problema para as instituições e para o Estado mas segundo declarações da secretária de Estado adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz, nada se pode fazer porque “as causas estão ligadas àquelas que são as aspirações, legítimas, dos candidatos a adoptantes”.

Publicada na edição de 20 de Agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mãe e filha de oito anos vivem numa barraca sem água nem luz no Tramagal


Uma mulher com 48 anos vive com a filha menor numa barraca de chapa de zinco sem água nem luz na Rua do Caldeirão, no Tramagal, Abrantes. O único rendimento mensal de Nazaré Nalha Duarte é relativo ao abono de família das duas filhas no valor de 84,90 euros que serve para pagar a mercearia e comprar uma garrafa de gás. A filha de 16 anos encontra-se neste momento a viver em casa do namorado, de 24 anos, devido às condições de extrema pobreza em que vivia.

Nazaré Duarte vive há oito anos numa barraca de chapa construída em terrenos herdados pela família e nunca soube o que era ter água ou luz. Divorciada e sem emprego vive com dificuldades agravadas pelo facto do ex-marido se encontrar sem paradeiro conhecido no estrangeiro e não cumprir com a pensão de alimentos no valor de 200 euros estipuladas em Tribunal, quando ficou com a custódia das filhas. Esporadicamente faz limpezas mas sobrevive muito à custa da ajuda dos vizinhos que lhe dão água e alguns alimentos.Mãe e filha tomam banho em casa de um primo.

A barraca onde habita com a Vanessa de 8 anos é iluminada à noite com um candeeiro a petróleo ou velas. Diz que inscreveu a menina no rancho folclórico para que ao menos a pequena possa desfrutar de alguns passeios já que não lhe pode proporcionar nada disso. A menina tem o computador “Magalhães” mas na maioria das vezes não o pode utilizar porque não tem como lhe carregar a bateria. Localizada junto a uns terrenos hortícolas, a barraca é muitas vezes invadida por cobras e outros bichos. “No outro dia ia para fazer a cama e vi uma cobra debaixo da colcha. Gritei e tiveram que me vir ajudar”, relata a O MIRANTE.

De acordo com a mulher, os técnicos dos serviços sociais da autarquia já visitaram o local e tiraram fotografias mas mais tarde ter-lhe-á sido dito “que tinha muita gente há sua frente”. Também a Comissão de Protecção de Menores se deslocou ao local há cerca de oito meses e ameaçou a habitante que lhe retirava a filha caso não arranjasse uma casa com outras condições de habitabilidade. O problema reside na falta de habitação social no Tramagal. “Não quero sair do Tramagal porque tenho a minha mãe e metade dos meus filhos. Aqui conheço toda a gente. Nunca sai daqui. Para Abrantes não vou porque lá não tenho confiança com ninguém”, diz.

A situação económica é de tal maneira grave que Nazaré Duarte não consegue ter dinheiro para tirar as fotocópias e tratar da documentação necessária para se candidatar ao subsídio de rendimento mínimo. Mostra os impressos que estão à espera de dias melhores. A tramagalense não recebe subsídio de emprego porque recusou uma ocupação em Tomar, arranjada através do Centro de Emprego de Abrantes. Ao nosso jornal disse que não aceitou o trabalho por ter problemas de saúde e outros decorrentes da falta de condições mormente de deslocação. “Se me arranjassem um emprego aqui aceitava logo”, garante.

Recentemente, um habitante da terra, Abílio Pombinho, decidiu ajudar esta família, dizendo-se chocado com as condições sub-humanas em que vivem. “Por minha insistência no Banco Alimentar Contra a Fome de Abrantes passou a constar o seu nome de forma a vir a receber um cabaz de alimentos”, aponta. Mas até o facto de não ser beneficiária de rendimento mínimo pode vir a ser um entrave nesta benesse. “Muitos dias a criança mais nova vai para a escola sem sequer tomar leite. A única refeição decente que faz é na escola”, aponta Abílio Pombinho para quem “casos desta natureza deviam ser imediatamente acompanhados”.

O presidente da Junta de Freguesia do Tramagal, Fernando Pires (PS) disse ao nosso jornal que o caso desta família já se encontra sinalizado pela Rede Social do Concelho de Abrantes. “É uma situação muito complicada porque a senhora não quer sair daqui e no Tramagal não temos habitação social. Existem algumas casas degradadas que podiam ser compradas e recuperadas pela autarquia com este fim mas esse processo só depende da câmara”, aponta o autarca.

Notícia integral publicada na edição de 2 Julho 2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

“Ser gémeo é conseguir falar através do silêncio”


Primeiro encontro de irmãos gémeos no Entroncamento realizou-se a 25 de Abril.

“Ser gémeo é conseguir falar através do silêncio”. As palavras de José Vicente, 45 anos, irmão gémeo do Pde. António Vicente, da Paróquia da Sagrada Família do Entroncamento, tentam demonstrar o que é isto de ser irmão gémeo de alguém. “Partilhamos os momentos de alegria e tristeza, mesmo sem dizer nada um ao outro”, aponta. Estamos no Regimento de Manutenção Militar do Entroncamento, no segundo dia da Festa da Família, um encontro de três dias criado para as famílias vindas de todo o país organizado pelo quarto ano consecutivo pela Paróquia da Sagrada Família. Curiosamente, na terra dos fenómenos há dois padres com irmãos gémeos: o Pe. Vicente e o Pe. Borga. Este último não se encontra, porém, entre os rostos que se parecem repetir como fotocópias.

Num pavilhão militar adaptado como sala de conferências, juntam-se cerca de 20 irmãos gémeos. A maioria são jovens e crianças. Os mais pequenos estão vestidos de iguais. Há também gémeos falsos, com poucas semelhanças. É o caso de Rita e José Constantino, de 15 anos que, à primeira vista, nada têm de igual. Nem a cor do olhos. Ela de um azul profundo, ele de um castanho doce. Não conseguem explicar muito bem o que é isto de serem gémeos mas sabem reconhecer as vantagens de serem de sexos diferentes. “Temos conversas que não tínhamos se fossemos ambos rapazes ou raparigas”, aponta Rita.

O Pde. Vicente, um comunicador nato, assume as funções de mediador do encontro e convida todos os presentes a partilharem a sua experiência. Os mais pequenos escondem-se na timidez e sorriem. É o seu irmão, José Vicente, que opta por contar algumas aventuras entre os dois. Como aquela vez em que o irmão foi confundido com ele numa rua de Santarém. O Pde. Vicente encontrava-se com a barba por fazer quando foi abordado por uma colega de trabalho do seu irmão. “Então Zé, há tanto tempo que não te via”, exclamou. Atrapalhado tentou convencer a senhora de que não era a pessoa que ela pensava mas sim o seu irmão gémeo. A muito custo conseguiu e segiu na direcção do barbeiro. Por coincidência, horas mais tarde volta a encontrar a mesma senhora que extasiada exclama: “Ai Zé, não sabes o que em aconteceu. Há pouco encontrei o teu irmão gémeo!” Ainda mais atrapalhado volta a explicar que ela está a falar com o mesmo mas agora com a barba feita. A mulher leva as mãos à cabeça e diz: “Ai Meu Deus! Há dias em que não pudemos sair de casa”.

Também o Pde. Vicente confessou aos presentes que sempre que o irmão sonha que ele tem um acidente de carro conduz com redobrada atenção. “Ando ali três ou quatro dias a conduzir muito devagar ate aquilo passar”, aponta bem-humorado. Recorda que a entrada no seminário o marcou pois foi a primeira vez que ficou longe do seu irmão gémeo. E que na escola quem sabia os exercícios é que ia ao quadro, independentemente de serem o António José ou o José António. Atenta às palavras do pároco, Celestina Santos, mãe dos gémeos Jacinta e Francisco não esconde a emoção enquanto participante deste encontro. Não se cansa de filmar e tirar fotografias aos seus rebentos de cinco anos e meio. “Ser mãe de gémeos é uma dupla felicidade”, assegura.

A “Festa da Família” do Entroncamento surge de uma “inquietação face aos inúmeros desafios que a família vive actualmente” e pretende ser um espaço de formação, partilha, oração e festa num recinto onde se realizam conferências, workshops, celebrações e concertos. Para o Pde. António Vicente, a experiência deste encontro, que se pensa ser o primeiro organizado na cidade do Entroncamento, foi muito gratificante. “Viver no seio materno nove meses e iniciar uma vida em conjunto permite que se dê esta ligação especial e hoje comprovou-se isso ao ouvirmos todos estes testemunhos”, aponta deixando no ar uma ideia inédita: promover uma peregrinação de irmãos gémeos do Entroncamento até ao Santuário de Fátima.