terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Embarcações do “Ti Fontes” dão mote a Museu da Pesca em Ortiga



Homenagem a Manuel Pires Fontes juntou uma centena de pessoas na Barragem de Belver.



A homenagem que o povo de Ortiga, Mação, fez no último domingo, 3 de Janeiro, a Manuel Pires Fontes - “o senhor dos Barcos” como alguém um dia lhe chamou – serviu de pretexto para anunciar o Museu das Artes da Pesca Tradicional de Ortiga onde vão ser perpetuados dois picaretos (embarcações típicas de Ortiga) por si construídos. Uma ideia que já tem cerca de cinco anos, tempo dedicado à recolha de algum espólio, mas que pretende agora ganhar um novo fôlego. A iniciativa, organizada em conjunto pela Associação “Os Amigos da Estação de Ortiga” e pela Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga, juntou cerca de uma centena de pessoas na Barragem de Belver (Ortiga) numa tarde de chuva miudinha.

O futuro espaço museológico deverá ser implantado num terreno, ainda em localização e com custos indefinidos, mas seguramente dentro da freguesia de Ortiga, a mais pequena do concelho de Mação. O objectivo passa por preservar as tradições locais, aquelas que passavam de pais para filhos. Como por exemplo, a arte de construção dos picaretos. Estas embarcações são construídas artesanalmente e uma das suas características mais curiosas passa pela acentuada curvatura da proa. Para lhe moldar a forma o calafate (nome que se atribuiu ao construtor de barcos) recorre a uma técnica ancestral que utiliza a água e o fogo. Para concretizar o projecto, os dinamizadores pedem apoio à Câmara Municipal de Mação para que, através dos últimos fundos comunitários disponíveis, comparticipe a aquisição do terreno com vista à construção do espaço museológico que, para abranger peças em tamanho original, terá que ser bastante espaçoso. Presente na cerimónia, o vice-presidente da autarquia, Vasco Estrela (PSD), assegurou que a câmara tudo vai fazer para que “este anseio das pessoas de Ortiga seja uma realidade dentro de em breve”.


reportagem integral publicada na edição de 07 de Janeiro de 2010

“Puseram em cima da festa do Natal uma outra realidade: a festa do consumo”


Frutuoso Duarte Matias, 70 anos, é pároco de Tomar há quatro anos. Tem um discurso muito translúcido e emite opiniões que são, muitas vezes, uma pedrada no charco. Pessoa reservada, assume que não gosta de dar entrevistas e só após alguma insistência abriu uma excepção para conversar com O MIRANTE. Uma conversa que decorreu na sua sala de trabalho, na igreja de São João Baptista, numa tarde do único dia de folga semanal, a segunda-feira.


Estamos no Natal. O que acha da frase tantas vezes repetida nesta época de que “O Natal devia ser todos os dias”?
Acho muito bem desde que se entenda que o espírito de Natal é todos os dias. Mas o Natal é o nascimento – Natal significa nascimento – de uma pessoa muito concreta. Jesus de Nazaré que o povo de Israel, onde nasceu, reconheceu como o Messias e o enviado de Deus para dar a boa nova do amor de Deus a todos os homens. Nesse sentido, O natal é um acontecimento histórico de um dia concreto.

Há dúvidas em relação à data exacta do seu nascimento…Não sabemos exactamente o dia em concreto quando Ele nasceu. Os antigos não davam muita importância ao dia do nascimento. De resto, o calendário, quando Cristo nasceu, não era como o nosso. Não havia o dia 25 de Dezembro. A igreja escolheu o dia 25 de Dezembro porque era uma festa que já existia - a Festa do Sol Nascente – e como vemos que Cristo é que é o Sol, a luz que guia os homens celebramos o seu nascimento no dia em que o sol começa outra vez a crescer. Há um grupo de cristãos, mais do oriente que celebra o Natal uns dias depois. A 6 de Janeiro, o nosso dia de Reis.

Sente que no Natal as pessoas aproximam-se mais da fé e da igreja? Nota a igreja mais cheia?
Já foi mais. Hoje as pessoas celebram tudo muito individualmente. Preferem o seu lar, a sua família. Onde têm conforto, aquecimento, tudo de bom… As pessoas, em tudo na vida social, cada vez são mais (pausa) – eu não queria dizer mas … – são mais egoístas talvez e isolam-se muito mais. Celebram muito poucas coisas em conjunto. É por isso que hoje, mesmo no Natal, há menos pessoas nas igrejas do que há uns anos atrás. As pessoas enchem-se muito com as coisas que têm em casa e ficam-se por aí. Não dão um sentido cristão explícito, religioso a este acontecimento…

Á missa do galo vão mais pessoas mas por moda…Não muitas e as que vão, fazem-no por tradição. Outras vão também por um bocado de poesia. Mas também há quem vá por fé e por um sentimento religioso, infelizmente nem sempre muito esclarecido. Mas alguma coisa há…

Entrevista completa publicada na edição de 23 de Dezembro

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Natal de Corvelo de Sousa




O presidente da Câmara de Tomar teve um Natal com neve até aos seis anos, na Serra de Leomil.

De todas as prendas de Natal que recebeu Corvelo de Sousa, 62 anos, actual presidente da Câmara Municipal de Tomar, elege uma caneta “de qualidade” que a mãe lhe ofereceu há vinte anos. É com esta – e tira-a do interior do casaco para a mostrar - que ainda assina os inúmeros despachos e documentos no exercício das suas funções. “É uma caneta que acho bonita e que a minha mãe sabia de que eu gostava porque perguntou à minha mulher. Ainda hoje tem a sua utilidade”, aponta.

Casado mas sem filhos, o Natal para Corvelo de Sousa é, sobretudo, uma paragem de calendário que aproveita para o reencontro com a família e amigos. “É interessante juntarmo-nos com um grupo mais alargado no Natal”, aponta. Costuma passar a noite de Natal no aconchego do lar. Janta e passa o serão com a família. Em seguida abrem os presentes e, pouco depois da meia-noite, termina a festa. “Não temos tido o hábito de ir à missa da meia-noite mas é uma coisa que eventualmente vou retomar”, revelou o presidente da Câmara Municipal de Tomar numa conversa que decorreu no seu gabinete de trabalho.

O frio que se faz sentir nesta altura leva-o a ficar à lareira, aproveitando a pausa para ler. O autarca não liga muito à ementa natalícia nem faz questão de comer o bacalhau com todos ou o peru assado. Mas há algo que não falta em cima da mesa e que até ajuda a confeccionar acompanhando o momento da cozedura: as fatias de Tomar.

A árvore de Natal que tem em casa consiste numa pernada (ramo) de um pinheiro que sobrou de uma operação de limpeza e confessa que “não se mete” na decoração, preferindo deixar essa missão para a esposa. As prendas são compradas em cima da hora mas tenta saber o que as pessoas querem para comprar coisas adequadas ao gosto das pessoas, tentando surpreender os outros.

Corvelo de Sousa viveu até aos seis anos na Serra de Leomil, Moimenta da Beira, e diz que nunca acreditou no Pai Natal. “O pai natal era uma realidade que quando era pequeno não era muito palpável, não é como hoje. Havia o menino Jesus e os Reis Magos e é isso que contava”, admite confessando que ainda hoje faz o presépio lá em casa. Nunca foi uma criança de pedir brinquedos e preferia ser surpreendido no momento em que desembrulhava o seu presente. Dos Natais passados na serra recorda sobretudo “que tinha muita neve” e de um frio que não tem a ver com o Natal. “Com nove graus negativos íamos todos à missa do galo”, lembra. O autarca veio viver para Tomar quando entrou na segunda classe.

No dia 25 de Dezembro, Corvelo de Sousa não trabalha mas diz que o telemóvel não pára de tocar. O ano passado perdeu a conta ao número de mensagens de Natal - “mais de cem de certeza” - e faz questão de responder, também por escrito, às mensagens que recebe. Gosta das iluminações de natal mas não fica mais emotivo nesta época. “O Natal dentro do ano litúrgico é um momento muito sensível e ligado à família mas não me deixa, de todo, nostálgico”, aponta. Até porque subscreve o ditado popular: “O Natal é sempre que um homem quiser”.