Cada vez que passo em Gouxaria, Alcanena, o pensamento foge-me para aquele casal que perdeu o filho de 20 anos, pouco tempo antes do Natal de 2008, numa recta mal calculada em plena Serra de Santo António. Antes de me contar o que aconteceu, uma mãe banhada em lágrimas insistiu em mostrar-me os objectos do filho. Respeitei o seu momento de luto e acabei por passar uma tarde de domingo chuvosa com alguém que não conhecia de lado nenhum mas que partilhou comigo toda a dor que sentia. Cada vez que vou a Alqueidão de Santo Amaro, Ferreira do Zêzere, lembro-me que ali mora, numa casa térrea com um bonito jardim, uma jovem mãe que deu o fígado ao seu filho para que este não perdesse a vida e o mima com todas as forças que tem. Sempre que passo na A23 vinda de Abrantes para Torres Novas sei que, algures por ali, morreu num acidente de automóvel uma jovem numa madrugada de temporal. E reduzo a velocidade por momentos.
Por mais que não queira, acabo sempre por revistar os lugares por onde passo, e volto a passar, com as reportagens que mais marcaram e que o tempo não apaga como faz com muitas outras. Pergunto-me se isto também acontece com os meus colegas de profissão? Ainda não sei porquê mas a memória teima em guardar mais histórias tristes do que alegres. Por isso ainda não esqueci cada vez que passo no Tramagal, Abrantes, que ali mora uma mulher com a filha de sete anos numa barraca sem água nem luz à espera que vague uma habitação social. Ou que vi homens de barba feita a chorar na primeira greve que se realizou na construtora João Salvador, em Tomar.
Mas, nem tudo são tristezas e há também lugares que me despertam sorrisos numa segunda visita. Sempre que regresso ao centro histórico de Abrantes é impossível não me lembrar de que já ali estive com um burro naquele que foi o protesto mais insólito que acompanhei. E como não me lembrar dos dois sacos de laranjas que o senhor Serafim Luís Homem, morador em Limeiras, Vila Nova da Barquinha, fez questão de me oferecer quando o fui ouvir tocar violino em sua casa? Do espirituoso “Encontro de Gémeos”, organizado pela paróquia da Sagrada Família, que fui assistir no Entroncamento ou da festa que o grupo de pessoas que se juntam todos os anos para cantar os Reis em Montalvo, Constância, fez quando viu a carrinha de O MIRANTE a chegar? São estas experiências tão distintas, e vividas quase ao ritmo diário, que fazem com que ainda continue a achar que tenho o privilégio de ter uma das profissões mais bonitas do mundo.
Crónica publicada na edição de aniversário 16 de Novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Uma história de amor que nasceu no autocarro - parte 2
Há alguns meses o Pedro, que já conhecia de um trabalho anterior, perguntou-me se me poderia contar a sua história de amor. Acedi conversar com este simpático casal numa tarde de sábado, no jardim do Castelo de Abrantes, sem saber muito bem o que iria ouvir e se acediam publicar a história no jornal onde trabalho.
A história foi publicada e O MIRANTE foi contactado por um elemento de uma equipa de produção de um programa de televisão. Na terça-feira viveram um momento emocionante. Felicidades!
http://sic.sapo.pt/online/video/programas/companhia-das-manhas/2009/11/o-amor-esta-no-ar10-11-2009-135137.htm
A história foi publicada e O MIRANTE foi contactado por um elemento de uma equipa de produção de um programa de televisão. Na terça-feira viveram um momento emocionante. Felicidades!
http://sic.sapo.pt/online/video/programas/companhia-das-manhas/2009/11/o-amor-esta-no-ar10-11-2009-135137.htm
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
“Quero pilotar helicópteros até que me o deixem fazer”

Natural de Tomar, Mónica Martins, 32 anos, é a única mulher piloto da Marinha Portuguesa, onde se encontra há 15 anos, tendo realizado uma especialização em helicópteros em 2004. Solteira e sem filhos sabe que a sua actividade não é das mais fáceis de conciliar com a vida pessoal. Actualmente ocupa o posto de Tenente e integra os destacamentos da esquadrilha de helicópteros, a postos para qualquer situação de emergência.
Como é que surgiu o mundo dos aviões na sua vida?
Eu não tinha a mínima ideia do que ia fazer a nível profissional. No 12.º ano chegaram à escola uns panfletos para concorrer à Força Aérea e resolvi concorrer com outra amiga. Fizemos os testes em Abril mas chumbei para pilotagem nos testes psicométricos. Regressámos à escola e pouco tempo depois outro colega convidou-nos a concorrer para a Marinha. Não fazia a mínima ideia ao que ia. Acabei por ser a única a conseguir entrar.
E que provas teve que fazer?
A média de entrada calcula-se da mesma forma que para a universidade. Mas tive que realizar provas médicas, testes psicomotores, psicológicos e testes físicos. Na Marinha os testes são feitos na Escola Naval acabei por fazer logo muitas amizades. Gostei do que vi. Os meus pais matricularam-me, entretanto, no curso de Matemática, via ensino, em Coimbra, por precaução. Penso que um dos grandes motivos que me levou a optar pela Marinha foi também porque os testes para a Força Aérea são feitos no Hospital do Lumiar. Escolhi a classe Marinha, que é a mais geral onde passei cinco anos (quatro teóricos na escola e um de estágio). Completei um ano como guarda marinha e três como segundo tenente, já a navegar. Entretanto abriu o concurso e entrei para Piloto Naval. O curso de pilotagem foi dividido entre Ota, Beja e Montijo. Concluí-o em Outubro de 2006.
E como é que foi voar pela primeira vez?
Já tinha o bichinho de voar até porque tinha concorrido à Força Aérea mas nunca tinha andado de avião. Começamos a parte de voo na Base de Beja, que pertence à Força Aérea. Depois de nos mostrarem o funcionamento do avião, dão-nos logo o comando para as mãos. Foi emocionante. É difícil mas nada que não se aprenda.
Como é que é ser a única mulher piloto naval na Marinha Portuguesa?
Ninguém estranha o facto de ser uma mulher a ocupar aquele cargo, pois já me encontro na Marinha há 15 anos. Já conhecia os meus camaradas porque andei muitas vezes nos navios, onde exercia outras funções. Penso que me tratam de igual para igual. Não há diferenças.
Qual foi a sua experiência mais marcante num helicóptero naval?
Foi durante uma missão que visava o combate à emigração ilegal e tráfico de ser humanos nas zonas do Senegal e Guiné e Estreito de Gibraltar e combate à pirataria na zona da Somália. Quando estávamos a passar no Mar Vermelho, junto ao Iémen, houve necessidade de prestar auxílio a militares que estavam numa ilha que entrou em erupção. Foi uma situação completamente inesperada mas que acabou por correr bem, embora dois militares nunca tivessem aparecido.
Até que idade é que pode andar nos helicópteros?
Não há uma idade imposta mas a certa altura damos a vez a outras pessoas e somos destacados para outras funções. É natural que isto aconteça no decorrer normal de uma carreira nas Forças Armadas.
Passa muito tempo longe da família. Nessas alturas sente o peso da profissão?
Confesso que já perdi alguns casamentos e festas de família por me encontrar fora do país. Não é fácil conciliar esta família com a profissão mas se estivesse mal, mudava-me. Estou bem onde estou. Esta foi a minha opção de vida, nada me foi imposto. Antes de tomar esta decisão informei-me e já sabia que o meu futuro ia ser assim.
A Marinha recebe formação específica quando tem que colaborar com outras Forças Armadas em missões internacionais?
Existem navios específicos para essas missões internacionais que são as fragatas. Quem vai para essas fragatas tem formação específica mas esta incide mais na operação do navio que tem que estar sempre pronto para integrar uma missão nacional ou internacional. Baseamo-nos sempre na doutrina NATO que inclui procedimentos comuns que existem para todos os países da NATO.
Tem capacidade de abrir fogo no helicóptero do navio?
Sim. Temos dois tipos de armas. Torpedos, que são armas que usamos contra submarinos e metralhadoras para combate à droga e pirataria mas que são utilizadas sempre com o primeiro objectivo de fazer parar estas embarcações.
As missões de salvamento que fazem são só no ar mas também em terra?
Há o salvamento marítimo que, em águas nacionais, é feito só com os nossos navios e os meios aéreos da Força Aérea. Depois existem as catástrofes naturais, como as cheias ou fogos onde os três ramos das forças armadas são chamados. Por exemplo, quando numa situação de cheias se vêem os botes é a Marinha a actuar. Mas, normalmente, as operações em terra são com os Fuzileiros, a não ser que a população em risco se localize junto ao mar. Treinamos exaustivamente as operações de “não combatentes” com o objectivo de prestar ajuda humanitária a civis. Nestes casos, o navio tem sempre capacidade de disponibilizar parte da guarnição e material que tem a bordo e prestar auxílio à povoação costeira.
Tem contactos esporádicos com outros pilotos da Força Aérea?
Todos os dias.
Nota-se alguma rivalidade por pertencerem a diferentes ramos das forças armadas?
Não, pelo contrário. Nós somos formados na Força Aérea. A esquadrilha de helicópteros da Marinha está dentro na base aérea do Montijo. Somos camaradas. A relação entre Marinha e Força Aérea é muito boa.
Já encontrou alguma explicação para que mais senhoras não estejam interessadas em ser piloto de helicópteros?
Simplesmente porque não há camaradas ainda que possam concorrer. Fui a primeira a ter hipótese de entrar para o curso de pilotagem em 2004. Dai para cá ainda não houve nenhuma mulher que estivesse nas condições de concorrer. São muito poucas as alturas em que se pode concorrer para ser piloto. Das únicas mulheres que conheço que podiam concorrer, uma escolheu Hidrografia e duas Artilharia. Também não há necessidade de abrir concurso para pilotos todos os anos. Quando concorri havia 20 candidatos e eu era a única mulher. Tive a sorte de, entre os 8 que foram apurados, de ser a mais graduada.
entrevista integral publicada na edição de 29 de Outubro
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