quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Adoptou três crianças portadoras de deficiência mental e diz que se pudesse adoptava mais


Rosa Silva não sabe o que é ser mãe no ventre mas sabe, e muito, o que é ser mãe no coração.

As crianças deficientes abandonadas em instituições não fazem parte do conjunto de crianças que os pais adoptivos preferem e geralmente têm um destino diferente dos outros meninos que acabam por encontrar um lar. Maria Rosa Conceição Silva, 60 anos, natural de Abrantes mas há muitos anos a viver na vila de Constância fez a diferença na vida de Patrícia, 24 anos e dos gémeos Luís e Sérgio, de 19 anos. Os três sofrem de um ligeiro atraso mental mas, actualmente, são jovens completamente autónomos.
A conversa desenrolou-se na sala de sua casa, uma vivenda localizada junto à Escola Secundária de Constância, e em frente aos três jovens que dividiam a atenção entre a televisão e um mapa de estradas. Rosa Silva que adoptou ainda uma quarta menina, sem qualquer deficiência, e que hoje já faz uma vida independente.

Foram as circunstâncias da vida que a levaram a adoptar. O marido, de quem actualmente se encontra separada, não podia ter filhos e pelo que esta foi a solução que o coração de Rosa. Estava casada há três anos quando foi buscar a Patrícia, apenas com dois meses e meio, a uma instituição de Coimbra. Recorda que para conseguir adoptar a menina legalmente teve que lutar bastante e gastar “rios de dinheiro”. Os gémeos vieram alguns anos depois e reconhece que por serem portadores de um ligeiro atraso mental, o processo de adopção foi bem mais fácil. “Tinha uma prima que trabalhava com Manuela Eanes (Presidente do Instituto de Apoio à Criança) e fui buscá-los com quatro anos a instituição de Aveiro onde estavam internados”, recorda. Por sua vontade e não o facto de ter 60 anos, ainda adoptava mais.
Rosa Silva diz que foi o amor pelo próximo que a motivou a adoptar crianças diferentes. Sabia que não tinha uma tarefa fácil pela frente mas diz que luta pelas coisas “como uma leoa”. Ensinou-os a andar. Com eles repetiu vezes sem conta os exercícios para desenvolver a sua fala. “Temos que ser determinados naquilo que queremos”, acentua. Por isso, andou dois meses seguidos, em Rui de Moinhos (Abrantes) a ensinar o Luís e o Sérgio a subir a descer uma escada. A atravessar a rua, a aprender a reconhecer o barulho vindo dos carros e das motas. Ensinou-os a andar de autocarro mas chegou à conclusão que não vale a pena uma vez que não conseguem voltar sozinhos. “A pessoa se não quer ter trabalho com uma criança vai buscar um animal que é muito mais fácil. Com uma criança não pode ser assim”, explica. Na rua, foi muitas vezes alvo de comentários trocistas e discriminatórios mas que nunca deitaram abaixo a sua determinação.

Na sua casa diz não mudou um único móvel de sítio. Diz que os gémeos sabem fazer todas as tarefas domésticas, desde passar roupa até fazer a cama, mas é a Rosa que cabe tratar de alguns aspectos da sua higiene como cortar o cabelo, as unhas ou fazer a barba. Têm a ordem de que não podem abrir a porta a ninguém. Às vezes esquecem-se e levam um raspanete. Antes das refeições, a oração é sempre sagrada porque Rosa Silva sabe por experiência própria o que é passar privações.
Sempre rigorosa em relação à educação dos seus filhos, colocou-os numa escola de ensino regular. Nunca aceitou qualquer tipo de discriminação. “Uma vez vi que estavam a brincar fora da sala de aula em cima de um colchão e fui reclamar com a professora”, recorda não esquecendo a outra ocasião em que, vigilante como sempre, os apanhou a varrer o pátio da escola perante a passividade das auxiliares educativas. “Disseram-me que estavam ali para não perturbarem a aula. Mas onde está o amor e a dignidade?”, questiona. Chegou a escreveu ao governo a pedir professores de ensino especial para os seus filhos mas acabou por retirá-los da escola aos 17 anos. Actualmente frequentam o Centro de Reabilitação e Integração Torrejano (CRIT), em Torres Novas. O Luís está atirar o curso de cozinha e Sérgio o de agricultura. A patrícia, apesar de ser mais desenrascada do que os irmãos, também frequenta a instituição.

A vida de Rosa Silva foi tudo menos fácil. Nascida no seio de uma família humilde de quatro irmãos, começou a trabalhar com cinco anos, a caiar paredes com a mãe. Toda a vida trabalhou como mulher-a-dias até se estabelecer por conta própria, já depois de casada, gerindo um mini-mercado em Constância, aberto por debaixo da sua habitação. O negócio acabou por ir abaixo devido ao seu bom coração. “As pessoas vinham-me pedir fiado e eu dava tudo. Por pena, até deixava roubar debaixo dos casacos”, relembra. Da Segurança Social diz não receber nenhum subsídio especial por ter adoptado estes jovens, apenas o abono a que qualquer criança tem direito. Valem-lhe os rendimentos de alguns imóveis imobiliários que pôs a render.

Rosa Silva sabe que os três filhos vão depender dos cuidados de terceiros até ao resto das suas vidas. Por isso, quando notar que tem dificuldades em continuar a tê-los ao seu encargo considera a hipótese de os entregar aos cuidados do Tribunal. A união que existe entre todos salta a vista. No momento em que acedeu ser fotografada com os três filhos, os olhos de Rosa humedeceram-se enquanto coloca a mão no peito: “Somos todos muito amigos. Posso não saber o que é ser mãe no ventre mas sei o que é ser mãe, aqui, no meu coração”.


Crianças deficientes são as maiores rejeitadas no processo de adopção
Num artigo publicado em Junho deste ano, O MIRANTE dava conta que de todas as famílias candidatas a adoptar uma criança no distrito de Santarém, nenhuma pretendia ficar com uma criança deficiente. Segundo os dados da Secretaria de Estado da Reabilitação, o mesmo se aplicava aos menores que estão à guarda de instituições e possuem doenças graves. A dificuldade em arranjar pais para estas crianças é um problema para as instituições e para o Estado mas segundo declarações da secretária de Estado adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz, nada se pode fazer porque “as causas estão ligadas àquelas que são as aspirações, legítimas, dos candidatos a adoptantes”.

Publicada na edição de 20 de Agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mãe e filha de oito anos vivem numa barraca sem água nem luz no Tramagal


Uma mulher com 48 anos vive com a filha menor numa barraca de chapa de zinco sem água nem luz na Rua do Caldeirão, no Tramagal, Abrantes. O único rendimento mensal de Nazaré Nalha Duarte é relativo ao abono de família das duas filhas no valor de 84,90 euros que serve para pagar a mercearia e comprar uma garrafa de gás. A filha de 16 anos encontra-se neste momento a viver em casa do namorado, de 24 anos, devido às condições de extrema pobreza em que vivia.

Nazaré Duarte vive há oito anos numa barraca de chapa construída em terrenos herdados pela família e nunca soube o que era ter água ou luz. Divorciada e sem emprego vive com dificuldades agravadas pelo facto do ex-marido se encontrar sem paradeiro conhecido no estrangeiro e não cumprir com a pensão de alimentos no valor de 200 euros estipuladas em Tribunal, quando ficou com a custódia das filhas. Esporadicamente faz limpezas mas sobrevive muito à custa da ajuda dos vizinhos que lhe dão água e alguns alimentos.Mãe e filha tomam banho em casa de um primo.

A barraca onde habita com a Vanessa de 8 anos é iluminada à noite com um candeeiro a petróleo ou velas. Diz que inscreveu a menina no rancho folclórico para que ao menos a pequena possa desfrutar de alguns passeios já que não lhe pode proporcionar nada disso. A menina tem o computador “Magalhães” mas na maioria das vezes não o pode utilizar porque não tem como lhe carregar a bateria. Localizada junto a uns terrenos hortícolas, a barraca é muitas vezes invadida por cobras e outros bichos. “No outro dia ia para fazer a cama e vi uma cobra debaixo da colcha. Gritei e tiveram que me vir ajudar”, relata a O MIRANTE.

De acordo com a mulher, os técnicos dos serviços sociais da autarquia já visitaram o local e tiraram fotografias mas mais tarde ter-lhe-á sido dito “que tinha muita gente há sua frente”. Também a Comissão de Protecção de Menores se deslocou ao local há cerca de oito meses e ameaçou a habitante que lhe retirava a filha caso não arranjasse uma casa com outras condições de habitabilidade. O problema reside na falta de habitação social no Tramagal. “Não quero sair do Tramagal porque tenho a minha mãe e metade dos meus filhos. Aqui conheço toda a gente. Nunca sai daqui. Para Abrantes não vou porque lá não tenho confiança com ninguém”, diz.

A situação económica é de tal maneira grave que Nazaré Duarte não consegue ter dinheiro para tirar as fotocópias e tratar da documentação necessária para se candidatar ao subsídio de rendimento mínimo. Mostra os impressos que estão à espera de dias melhores. A tramagalense não recebe subsídio de emprego porque recusou uma ocupação em Tomar, arranjada através do Centro de Emprego de Abrantes. Ao nosso jornal disse que não aceitou o trabalho por ter problemas de saúde e outros decorrentes da falta de condições mormente de deslocação. “Se me arranjassem um emprego aqui aceitava logo”, garante.

Recentemente, um habitante da terra, Abílio Pombinho, decidiu ajudar esta família, dizendo-se chocado com as condições sub-humanas em que vivem. “Por minha insistência no Banco Alimentar Contra a Fome de Abrantes passou a constar o seu nome de forma a vir a receber um cabaz de alimentos”, aponta. Mas até o facto de não ser beneficiária de rendimento mínimo pode vir a ser um entrave nesta benesse. “Muitos dias a criança mais nova vai para a escola sem sequer tomar leite. A única refeição decente que faz é na escola”, aponta Abílio Pombinho para quem “casos desta natureza deviam ser imediatamente acompanhados”.

O presidente da Junta de Freguesia do Tramagal, Fernando Pires (PS) disse ao nosso jornal que o caso desta família já se encontra sinalizado pela Rede Social do Concelho de Abrantes. “É uma situação muito complicada porque a senhora não quer sair daqui e no Tramagal não temos habitação social. Existem algumas casas degradadas que podiam ser compradas e recuperadas pela autarquia com este fim mas esse processo só depende da câmara”, aponta o autarca.

Notícia integral publicada na edição de 2 Julho 2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

“Ser gémeo é conseguir falar através do silêncio”


Primeiro encontro de irmãos gémeos no Entroncamento realizou-se a 25 de Abril.

“Ser gémeo é conseguir falar através do silêncio”. As palavras de José Vicente, 45 anos, irmão gémeo do Pde. António Vicente, da Paróquia da Sagrada Família do Entroncamento, tentam demonstrar o que é isto de ser irmão gémeo de alguém. “Partilhamos os momentos de alegria e tristeza, mesmo sem dizer nada um ao outro”, aponta. Estamos no Regimento de Manutenção Militar do Entroncamento, no segundo dia da Festa da Família, um encontro de três dias criado para as famílias vindas de todo o país organizado pelo quarto ano consecutivo pela Paróquia da Sagrada Família. Curiosamente, na terra dos fenómenos há dois padres com irmãos gémeos: o Pe. Vicente e o Pe. Borga. Este último não se encontra, porém, entre os rostos que se parecem repetir como fotocópias.

Num pavilhão militar adaptado como sala de conferências, juntam-se cerca de 20 irmãos gémeos. A maioria são jovens e crianças. Os mais pequenos estão vestidos de iguais. Há também gémeos falsos, com poucas semelhanças. É o caso de Rita e José Constantino, de 15 anos que, à primeira vista, nada têm de igual. Nem a cor do olhos. Ela de um azul profundo, ele de um castanho doce. Não conseguem explicar muito bem o que é isto de serem gémeos mas sabem reconhecer as vantagens de serem de sexos diferentes. “Temos conversas que não tínhamos se fossemos ambos rapazes ou raparigas”, aponta Rita.

O Pde. Vicente, um comunicador nato, assume as funções de mediador do encontro e convida todos os presentes a partilharem a sua experiência. Os mais pequenos escondem-se na timidez e sorriem. É o seu irmão, José Vicente, que opta por contar algumas aventuras entre os dois. Como aquela vez em que o irmão foi confundido com ele numa rua de Santarém. O Pde. Vicente encontrava-se com a barba por fazer quando foi abordado por uma colega de trabalho do seu irmão. “Então Zé, há tanto tempo que não te via”, exclamou. Atrapalhado tentou convencer a senhora de que não era a pessoa que ela pensava mas sim o seu irmão gémeo. A muito custo conseguiu e segiu na direcção do barbeiro. Por coincidência, horas mais tarde volta a encontrar a mesma senhora que extasiada exclama: “Ai Zé, não sabes o que em aconteceu. Há pouco encontrei o teu irmão gémeo!” Ainda mais atrapalhado volta a explicar que ela está a falar com o mesmo mas agora com a barba feita. A mulher leva as mãos à cabeça e diz: “Ai Meu Deus! Há dias em que não pudemos sair de casa”.

Também o Pde. Vicente confessou aos presentes que sempre que o irmão sonha que ele tem um acidente de carro conduz com redobrada atenção. “Ando ali três ou quatro dias a conduzir muito devagar ate aquilo passar”, aponta bem-humorado. Recorda que a entrada no seminário o marcou pois foi a primeira vez que ficou longe do seu irmão gémeo. E que na escola quem sabia os exercícios é que ia ao quadro, independentemente de serem o António José ou o José António. Atenta às palavras do pároco, Celestina Santos, mãe dos gémeos Jacinta e Francisco não esconde a emoção enquanto participante deste encontro. Não se cansa de filmar e tirar fotografias aos seus rebentos de cinco anos e meio. “Ser mãe de gémeos é uma dupla felicidade”, assegura.

A “Festa da Família” do Entroncamento surge de uma “inquietação face aos inúmeros desafios que a família vive actualmente” e pretende ser um espaço de formação, partilha, oração e festa num recinto onde se realizam conferências, workshops, celebrações e concertos. Para o Pde. António Vicente, a experiência deste encontro, que se pensa ser o primeiro organizado na cidade do Entroncamento, foi muito gratificante. “Viver no seio materno nove meses e iniciar uma vida em conjunto permite que se dê esta ligação especial e hoje comprovou-se isso ao ouvirmos todos estes testemunhos”, aponta deixando no ar uma ideia inédita: promover uma peregrinação de irmãos gémeos do Entroncamento até ao Santuário de Fátima.