sexta-feira, 24 de julho de 2009

“Ser gémeo é conseguir falar através do silêncio”


Primeiro encontro de irmãos gémeos no Entroncamento realizou-se a 25 de Abril.

“Ser gémeo é conseguir falar através do silêncio”. As palavras de José Vicente, 45 anos, irmão gémeo do Pde. António Vicente, da Paróquia da Sagrada Família do Entroncamento, tentam demonstrar o que é isto de ser irmão gémeo de alguém. “Partilhamos os momentos de alegria e tristeza, mesmo sem dizer nada um ao outro”, aponta. Estamos no Regimento de Manutenção Militar do Entroncamento, no segundo dia da Festa da Família, um encontro de três dias criado para as famílias vindas de todo o país organizado pelo quarto ano consecutivo pela Paróquia da Sagrada Família. Curiosamente, na terra dos fenómenos há dois padres com irmãos gémeos: o Pe. Vicente e o Pe. Borga. Este último não se encontra, porém, entre os rostos que se parecem repetir como fotocópias.

Num pavilhão militar adaptado como sala de conferências, juntam-se cerca de 20 irmãos gémeos. A maioria são jovens e crianças. Os mais pequenos estão vestidos de iguais. Há também gémeos falsos, com poucas semelhanças. É o caso de Rita e José Constantino, de 15 anos que, à primeira vista, nada têm de igual. Nem a cor do olhos. Ela de um azul profundo, ele de um castanho doce. Não conseguem explicar muito bem o que é isto de serem gémeos mas sabem reconhecer as vantagens de serem de sexos diferentes. “Temos conversas que não tínhamos se fossemos ambos rapazes ou raparigas”, aponta Rita.

O Pde. Vicente, um comunicador nato, assume as funções de mediador do encontro e convida todos os presentes a partilharem a sua experiência. Os mais pequenos escondem-se na timidez e sorriem. É o seu irmão, José Vicente, que opta por contar algumas aventuras entre os dois. Como aquela vez em que o irmão foi confundido com ele numa rua de Santarém. O Pde. Vicente encontrava-se com a barba por fazer quando foi abordado por uma colega de trabalho do seu irmão. “Então Zé, há tanto tempo que não te via”, exclamou. Atrapalhado tentou convencer a senhora de que não era a pessoa que ela pensava mas sim o seu irmão gémeo. A muito custo conseguiu e segiu na direcção do barbeiro. Por coincidência, horas mais tarde volta a encontrar a mesma senhora que extasiada exclama: “Ai Zé, não sabes o que em aconteceu. Há pouco encontrei o teu irmão gémeo!” Ainda mais atrapalhado volta a explicar que ela está a falar com o mesmo mas agora com a barba feita. A mulher leva as mãos à cabeça e diz: “Ai Meu Deus! Há dias em que não pudemos sair de casa”.

Também o Pde. Vicente confessou aos presentes que sempre que o irmão sonha que ele tem um acidente de carro conduz com redobrada atenção. “Ando ali três ou quatro dias a conduzir muito devagar ate aquilo passar”, aponta bem-humorado. Recorda que a entrada no seminário o marcou pois foi a primeira vez que ficou longe do seu irmão gémeo. E que na escola quem sabia os exercícios é que ia ao quadro, independentemente de serem o António José ou o José António. Atenta às palavras do pároco, Celestina Santos, mãe dos gémeos Jacinta e Francisco não esconde a emoção enquanto participante deste encontro. Não se cansa de filmar e tirar fotografias aos seus rebentos de cinco anos e meio. “Ser mãe de gémeos é uma dupla felicidade”, assegura.

A “Festa da Família” do Entroncamento surge de uma “inquietação face aos inúmeros desafios que a família vive actualmente” e pretende ser um espaço de formação, partilha, oração e festa num recinto onde se realizam conferências, workshops, celebrações e concertos. Para o Pde. António Vicente, a experiência deste encontro, que se pensa ser o primeiro organizado na cidade do Entroncamento, foi muito gratificante. “Viver no seio materno nove meses e iniciar uma vida em conjunto permite que se dê esta ligação especial e hoje comprovou-se isso ao ouvirmos todos estes testemunhos”, aponta deixando no ar uma ideia inédita: promover uma peregrinação de irmãos gémeos do Entroncamento até ao Santuário de Fátima.

Preparativos de um casamento nos anos 40 numa aldeia de Tomar

Relato dos preparativos de um casamento de antigamente celebrado na aldeia de Vila Nova, na freguesia de Paialvo.

No livro “Vila Nova, sua história, a nossa gente”, publicado em Janeiro de 2007 pela Sociedade Instrutiva, Recreativa e Desportiva Vilanovense, encontramos o relato dos preparativos de um casamento na aldeia de Vila Nova, freguesia de Paialvo, nos anos 40.

Conta a narrativa que, após os namorados acordarem entre si que queriam casar transmitiam esta novidade aos pais. Em seguida acertavam a data e os pais dos noivos ajustavam entre si como seria feita a boda. Neste caso, se a despesa era em conjunto ou se cada um organizava uma refeição. Optava-se quase sempre pela primeira opção. O vestido da noiva era comprado a metro e costurado pela própria ou pela costureira mais prendada da terra. As jóias utilizadas eram as de família. O noivo vestia um fato simples e gravata.

“Falava-se” a uma cozinheira e escolhia-se o que entrava na confecção das refeições. Canja de galinha, borrego com batatas e alguns coelhos, vinho, licor, queijo de ovelha ou cabra, arroz doce e bolos de massa eram as iguarias que, normalmente, faziam parte da lista da boda. Tudo com a prata da casa.

Nos dias que antecediam ao casamento, os rapazes e raparigas, amigos dos noivos, eram “convocados” para ajudarem a montar o local da boda. Eles iam buscar bancos, cadeiras e mesas, na maioria das vezes emprestados pelos vizinhos. Elas iam buscar loiça e talheres emprestados, ajudavam na cozinha.

Na véspera do casamento, era feita a “visita” aos convidados e padrinhos. A tradição, que se perdeu ao longo dos anos, consistia em oferecer aos convidados um prato de arroz doce e um bolo. Aos padrinhos era levada uma travessa de arroz doce, dois bolos de massa e uma garrafa de licor, a aguardente da melhor qualidade dos alambiques da terra, aroma de anis comprado na farmácia ou então cascas de tangerina colocadas semanas antes na aguardente.

No dia do casamento, os convidados e padrinhos apresentavam-se bem cedo em casa de quem os convidou. Ali era servido um licor, pires de arroz doce e uma fatia de bolo. Seguidamente, os noivos seguiam de charret ou de carroça, até Carrazede, onde se localizava a igreja. Os convidados seguiam a pé.

Após a cerimónia do matrimónio regressava-se ao local da boda, onde se comia e bebia. A festa terminava à noite com um baile. No outro dia a vida voltava ao normal, ou seja, ao que era trabalhar de sol a sol.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

História de um casamento multiracial




Nasceram em pontos diferentes do planeta mas conheceram-se numa discoteca em Torres Novas. Foi amor à primeira vista. Há seis meses trocaram votos eternos em Tomar.

Filha de pai russo e mãe ucraniana, Olesya Nezhdanova nasceu na Alemanha há 23 anos e tem nacionalidade ucraniana. Descendente de pais cabo-verdianos, Carlos Dias nasceu em Lisboa há 28 anos. Ela tem tez clara e olhos verdes. Ele tem pele escura e olhos castanhos. No dia 13 de Setembro de 2008 trocaram juras de amor eterno na igreja de São João Baptista, na Praça da República, em Tomar, cidade onde vivem há quatro anos, devido à jovem se encontrar ali a estudar. Olesya veio de Itália, onde vivia com familiares, para Portugal, para junto da mãe que vivia em Torres Novas e que para aqui emigrou há sete anos à procura de novas oportunidades.

O casamento demorou um ano a preparar e seguiu-se após um romântico pedido de joelhos feito em pleno restaurante na noite em que comemoravam três anos de namoro. O casal já vivia debaixo do mesmo tecto há dois anos. Mas o amor surgiu mais cedo, à primeira vista, numa discoteca em Torres Novas, onde Carlos estava a trabalhar ocasionalmente para conseguir juntar algum dinheiro. Já tinham sido apresentados por amigos há algum tempo mas o contacto perdeu-se. Nessa noite deu-se um clique. “Todos perceberam, logo nessa noite, que estávamos apaixonados”, recorda Olesya. As familias de ambos aceitaram bem a relação. “A minha mãe não adora… ama o Carlos”, aponta radiante.

O casamento de Olesya e Carlos teve direito a cerimónia religiosa (sem missa) e na boda deu-se uma junção entre as culturas ucraniana, portuguesa e cabo-verdiano. “ A minha religião é ortodoxa, ele é católico mas a igreja não viu problemas em casar-nos. Apenas tive que confirmar que era baptizada”, explica a jovem. A cerimónia, sem missa, pautou-se pela simplicidade. Seguiu-se a boda numa unidade hoteleira junto ao rio Nabão. Ela teve duas madrinhas, ele teve um casal de padrinhos. Ao todo eram 70 convidados. Olesya teve pena que algumas das suas amigas da Ucrânia não pudessem vir, tanta foi a burocracia exigida para conseguir obter o visto. “Até fotografias nossas tive que enviar para comprovar que nos iamos casar mas mesmo assim não consegui que viessem”, refere.

O vestido era simples, constituido por corpete e saia. As alianças escolhidas são as mais tradicionais. Olesya conta algumas tradições de casamentos no seus país mas que, com muita pena sua, não tiveram lugar na sua boda, também porque não teve muitos convidados e os que se encontravam podiam não compreender. “Na Ucrânia raptam a noiva durante a festa e o noivo tem depois que a encontrar e bebem champagne do sapato ou da bota da noiva”, exemplifica. A Lua-de-Mel foi na Tunísia.

A história de amor deste casal e vivida sem preconceitos ou pertubações, mesmo quando estranhos constatam surpreendidos as diferenças físicas entre o casal. “Dizem-nos que somos muito diferentes mas muito parecidos ao mesmo tempo. Damo-nos muito, muito bem!”, aponta. Mais do que a cor da pele, Olesya e Carlos tiveram que aprender um pouco da cultura de cada um. Lá em casa é ela que cozinha, confeccionado muitos pratos típicos da gastronomia russa. Ele adora. Ela teve que se adaptar ao Natal da cultura portuguesa, uma vez que o seu é comemorado a 7 de Janeiro. No último, quando visitou a familia de Carlos em Lisboa, estranhou a comida africana condimentada mas confessa que cada vez gosta mais desta data.

Carlos Dias é militar em Tancos e Olesya finalista do curso de Gestão Turística e Cultural. Nos últimos sete anos estudou, trabalhou e tornou-se numa das melhores alunas da sua escola. A média de 17 valores torna-a na melhor aluna do Instituto Politécnico de Tomar, tendo sido distinguida recentemente pelo Rotary Club de Tomar pelo mérito alcançado.

A jovem ucraniana encontra-se a concluir a licenciatura do seu curso. Carlos vai deixar a tropa no próximo ano. Os filhos só selarão o amor deste casal multiracial quando encontrarem a estabilidade profissional e económica. Seja em qualquer parte do mundo.

Publicado na Edição de 02 de Abril de 2009