sexta-feira, 24 de julho de 2009

Preparativos de um casamento nos anos 40 numa aldeia de Tomar

Relato dos preparativos de um casamento de antigamente celebrado na aldeia de Vila Nova, na freguesia de Paialvo.

No livro “Vila Nova, sua história, a nossa gente”, publicado em Janeiro de 2007 pela Sociedade Instrutiva, Recreativa e Desportiva Vilanovense, encontramos o relato dos preparativos de um casamento na aldeia de Vila Nova, freguesia de Paialvo, nos anos 40.

Conta a narrativa que, após os namorados acordarem entre si que queriam casar transmitiam esta novidade aos pais. Em seguida acertavam a data e os pais dos noivos ajustavam entre si como seria feita a boda. Neste caso, se a despesa era em conjunto ou se cada um organizava uma refeição. Optava-se quase sempre pela primeira opção. O vestido da noiva era comprado a metro e costurado pela própria ou pela costureira mais prendada da terra. As jóias utilizadas eram as de família. O noivo vestia um fato simples e gravata.

“Falava-se” a uma cozinheira e escolhia-se o que entrava na confecção das refeições. Canja de galinha, borrego com batatas e alguns coelhos, vinho, licor, queijo de ovelha ou cabra, arroz doce e bolos de massa eram as iguarias que, normalmente, faziam parte da lista da boda. Tudo com a prata da casa.

Nos dias que antecediam ao casamento, os rapazes e raparigas, amigos dos noivos, eram “convocados” para ajudarem a montar o local da boda. Eles iam buscar bancos, cadeiras e mesas, na maioria das vezes emprestados pelos vizinhos. Elas iam buscar loiça e talheres emprestados, ajudavam na cozinha.

Na véspera do casamento, era feita a “visita” aos convidados e padrinhos. A tradição, que se perdeu ao longo dos anos, consistia em oferecer aos convidados um prato de arroz doce e um bolo. Aos padrinhos era levada uma travessa de arroz doce, dois bolos de massa e uma garrafa de licor, a aguardente da melhor qualidade dos alambiques da terra, aroma de anis comprado na farmácia ou então cascas de tangerina colocadas semanas antes na aguardente.

No dia do casamento, os convidados e padrinhos apresentavam-se bem cedo em casa de quem os convidou. Ali era servido um licor, pires de arroz doce e uma fatia de bolo. Seguidamente, os noivos seguiam de charret ou de carroça, até Carrazede, onde se localizava a igreja. Os convidados seguiam a pé.

Após a cerimónia do matrimónio regressava-se ao local da boda, onde se comia e bebia. A festa terminava à noite com um baile. No outro dia a vida voltava ao normal, ou seja, ao que era trabalhar de sol a sol.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

História de um casamento multiracial




Nasceram em pontos diferentes do planeta mas conheceram-se numa discoteca em Torres Novas. Foi amor à primeira vista. Há seis meses trocaram votos eternos em Tomar.

Filha de pai russo e mãe ucraniana, Olesya Nezhdanova nasceu na Alemanha há 23 anos e tem nacionalidade ucraniana. Descendente de pais cabo-verdianos, Carlos Dias nasceu em Lisboa há 28 anos. Ela tem tez clara e olhos verdes. Ele tem pele escura e olhos castanhos. No dia 13 de Setembro de 2008 trocaram juras de amor eterno na igreja de São João Baptista, na Praça da República, em Tomar, cidade onde vivem há quatro anos, devido à jovem se encontrar ali a estudar. Olesya veio de Itália, onde vivia com familiares, para Portugal, para junto da mãe que vivia em Torres Novas e que para aqui emigrou há sete anos à procura de novas oportunidades.

O casamento demorou um ano a preparar e seguiu-se após um romântico pedido de joelhos feito em pleno restaurante na noite em que comemoravam três anos de namoro. O casal já vivia debaixo do mesmo tecto há dois anos. Mas o amor surgiu mais cedo, à primeira vista, numa discoteca em Torres Novas, onde Carlos estava a trabalhar ocasionalmente para conseguir juntar algum dinheiro. Já tinham sido apresentados por amigos há algum tempo mas o contacto perdeu-se. Nessa noite deu-se um clique. “Todos perceberam, logo nessa noite, que estávamos apaixonados”, recorda Olesya. As familias de ambos aceitaram bem a relação. “A minha mãe não adora… ama o Carlos”, aponta radiante.

O casamento de Olesya e Carlos teve direito a cerimónia religiosa (sem missa) e na boda deu-se uma junção entre as culturas ucraniana, portuguesa e cabo-verdiano. “ A minha religião é ortodoxa, ele é católico mas a igreja não viu problemas em casar-nos. Apenas tive que confirmar que era baptizada”, explica a jovem. A cerimónia, sem missa, pautou-se pela simplicidade. Seguiu-se a boda numa unidade hoteleira junto ao rio Nabão. Ela teve duas madrinhas, ele teve um casal de padrinhos. Ao todo eram 70 convidados. Olesya teve pena que algumas das suas amigas da Ucrânia não pudessem vir, tanta foi a burocracia exigida para conseguir obter o visto. “Até fotografias nossas tive que enviar para comprovar que nos iamos casar mas mesmo assim não consegui que viessem”, refere.

O vestido era simples, constituido por corpete e saia. As alianças escolhidas são as mais tradicionais. Olesya conta algumas tradições de casamentos no seus país mas que, com muita pena sua, não tiveram lugar na sua boda, também porque não teve muitos convidados e os que se encontravam podiam não compreender. “Na Ucrânia raptam a noiva durante a festa e o noivo tem depois que a encontrar e bebem champagne do sapato ou da bota da noiva”, exemplifica. A Lua-de-Mel foi na Tunísia.

A história de amor deste casal e vivida sem preconceitos ou pertubações, mesmo quando estranhos constatam surpreendidos as diferenças físicas entre o casal. “Dizem-nos que somos muito diferentes mas muito parecidos ao mesmo tempo. Damo-nos muito, muito bem!”, aponta. Mais do que a cor da pele, Olesya e Carlos tiveram que aprender um pouco da cultura de cada um. Lá em casa é ela que cozinha, confeccionado muitos pratos típicos da gastronomia russa. Ele adora. Ela teve que se adaptar ao Natal da cultura portuguesa, uma vez que o seu é comemorado a 7 de Janeiro. No último, quando visitou a familia de Carlos em Lisboa, estranhou a comida africana condimentada mas confessa que cada vez gosta mais desta data.

Carlos Dias é militar em Tancos e Olesya finalista do curso de Gestão Turística e Cultural. Nos últimos sete anos estudou, trabalhou e tornou-se numa das melhores alunas da sua escola. A média de 17 valores torna-a na melhor aluna do Instituto Politécnico de Tomar, tendo sido distinguida recentemente pelo Rotary Club de Tomar pelo mérito alcançado.

A jovem ucraniana encontra-se a concluir a licenciatura do seu curso. Carlos vai deixar a tropa no próximo ano. Os filhos só selarão o amor deste casal multiracial quando encontrarem a estabilidade profissional e económica. Seja em qualquer parte do mundo.

Publicado na Edição de 02 de Abril de 2009

Antigo mecânico de Ourém restaura clássicos para a sua colecção particular




António Pereira, ex-imigrante em França, mora em Espite, Ourém e colecciona carros antigos, restaurando-os de raiz. Um hobbie que já ultrapassa as duas dezenas de viaturas e que lhe permite, todos os dias, sair com um clássico diferente para a rua.

Imigrou para França em 1959, trabalhando durante quarenta anos em oficinas de bate-chapas, perto de Paris, até se estabelecer por conta própria. Em jovem teve vários carros mas houve um modelo Ford Consul Classic 315 que o marcou. Mais tarde, viu numa revista de carros clássicos, um carro idêntico e resolveu comprá-lo. Depois de regatear o preço, acabou mesmo por ficar com o clássico. Meteu mãos à obra e recuperou o veículo de raiz, ficando como novo. Não era a primeira vez que António Pereira, actualmente com 65 anos, se metia em tais andanças pois já tinha recuperado carros antigos para o filho e para o genro. “Desde chaparia, à parte de mêcanica e acabamentos, faço a recuperação completa dos meus carros”, disse a O MIRANTE, acrescentando que antes de desmontar o veículo começa logo por fazer a lista das peças que precisa. As que não existem, uma vez que algumas viaturas que já recuperou remontam a 1923, não são obstáculo incontornável. “Umas faço-as, outras mando-a fazer ou vir do estrangeiro”, explica, acrescentando que já foi a Paris várias vezes, de propósito, à procura de peças. “Não fica um parafuso em cima do carro”, conta.

Numa divisão anexa à sua casa, no lugar de Espite, freguesia de Ourém, mostra a colecção que iniciou há 20 anos e que conta com 23 carros clássicos até ao momento, se bem que na forja já se encontra uma carrinha de 1927 para restaurar. As viaturas, que reluzem ao olhar, só vão para a estrada quando estão em condições. António Pereira anda, em praticamente, todos e por isso os clássicos encontram-se todos cobertos pelo seguro. Habitual frequentador de passeios de carros antigos da região, guarda em casa as memórias desses encontros, retratados em inúmeras fotografias, azulejos ou outras recordações. Ainda recentemente, recorda um passeio que aconteceu em Ourém e que culminou com a visita dos participantes à sua colecção. A esposa, Maria José, também o acompanha nessas ocasiões. “O que ele faz, faz bem”, atesta, habituada a ver o marido horas e horas de volta dos carros na oficina. “Nunca pensei em ter tantos carros assim seguidos mas, quando vou de férias a Paris, onde tenho família, vejo-os à venda e compro-os”, explica António Pereira, reconhecendo que este é um “hobbie dispendioso” e que só consegue manter devido a uma vida regrada noutros aspectos.

O antigo mecânico gosta de documentar fotograficamente todo o processo de recuperação para mostrar o antes e depois. “Os carros vêm num estado lamentável e só ficam valorizados depois de muitas horas de trabalho”, ressalva, explicando que primeiro que tudo começa por recuperar o motor do carro, passando posteriormente à parte mecânica, à carroçaria e, finalmente, aos acabamentos e pintura. Só os bancos e os estofos são montados por um profissional.
A estima que tem por cada um destes veículos é notória quando mexe neles e exemplifica como trabalham. Por isso tem dificuldade em dizer de qual gosta mais. “É como as mulheres, gosto delas todas”, dispara com uma sonora gargalhada.

Publicado na edição de 22 de Janeiro de 2009

sábado, 18 de abril de 2009

Uma tradição com cruzes para evocar a ressurreição de Cristo





Na “Matança dos Judeus” em Cem Soldos, Tomar, as pessoas mais velhas transportam canas mais altas para que os mais jovens não esqueçam a importância da tradição da terra que já conta mais de cinco séculos.


Os sinos tocam a repique a anunciar a Ressurreição de Cristo. Ainda não são dez da manhã e pelas ruas de Cem Soldos, freguesia da Madalena, em Tomar, já se ouve: “Aleluia, Aleluia. Já ressuscitou o Nosso Senhor”. O pároco não participa. A frase é repetida até à exaustão por gente de todas as idades, em passo rápido. Vozes que vão ficando roucas à medida que o tempo passa. Os rapazes e os homens levam nas mãos cruzes feitas em cana verde, enfeitada com flores campestres como a aleluia, goivos, malmequeres, lírios ou jarros. As raparigas e mulheres levam as mesmas flores em ramo. No meio da multidão que se desloca em magote, e que durante hora e meia percorre todas as ruas da aldeia, destacam-se duas canas pela extravagância das suas dimensões e que, devido aos fios eléctricos, exigem redobrada atenção por parte de quem as transporta.Uma tem seis metros e meio, outra pouco menos. Mas no cortejo encontram-se canas floridas de todos os tamanhos.

Carlos Godinho é um dos veteranos do “Cortejo das Cruzes” que sai à rua todos os anos no Domingo de Páscoa em Cem Soldos e que termina com um ritual denominado “A matança dos Judeus”, no qual as canas e os ramos são destruídos no portal da igreja da aldeia. É dele a cana mais alta, recolhida de véspera num canavial das redondezas e que demorou uma tarde a ficar pronta. A técnica é simples mas requer concentração: com um canivete limpa-se a cana, mete-se um arco em fio ou arame para colocar as flores de várias qualidades que foram separadas em raminhos e que, confessa, são apanhadas no campo ou “roubadas” em quintais de vizinhos. A cana em questão foi isolada, de propósito, de outras para que pudesse atingir tamanha dimensão. “Um incentivo para que os mais novos reconheçam a importância desta tradição”, explica a O MIRANTE. Atento à conversa, Horácio Mourão segura a sua cana de 5 metros e meio. Também ele se entregou de corpo e alma à elaboração da sua cana, a mesma que no final da procissão vai destruir num ápice e com grande destreza em frente à igreja de S. Sebastião. Não o incomoda tanto trabalho para nada. A tradição fala mais alto.

Ornamentação das canas é pretexto para o convívio

Os jovens que encabeçam a procissão são os que completam 20 anos este ano. Jovens que noutros tempos estariam no ano “das sortes”, ou seja, o ano em que iriam fazer a inspecção militar, explica Francisca Costa. Mas, nos dias que correm, o grupo é constituido por rapazes e raparigas, apelidados por “pessoal do ano”. O rapaz mais velho do ano leva uma cruz e os restantes pequenos sinos, vestindo as opas vermelhas da confraria do Santíssimo Sacramento de Cem Soldos. São eles que organizam todos os preparativos do evento, como se de um momento iniciático para a vida adulta se tratasse. São eles que no final vão limpar as canas partidas que têm como destino o contentor do lixo.

A construção e ornamentação das canas é um bom pretexto para o convívio, dizem os populares. Juntos apanham as flores, cortam as canas, constroem as cruzes e as enfeitam com os pequenos ramos floridos.

No último domingo de Páscoa, antes de entrarem na igreja para cantar o “Aleluia” passam pela sede do Sport Club Operário de Cem Soldos onde recebem as amêndoas. No final a maioria, opta por partir as cruzes e os ramos no portal da igreja. Um gesto feito com bastante energia. É aqui que as opiniões se dividem. Para uns trata-se da libertação de Cristo de Cruz. No entender de outros, a vingança da sua morte, personificando a “A Matança dos Judeus”. Os que optam por não partir as cruzes de canas floridas irão depositá-las à tarde no cemitério, em homenagem aos ente queridos que já partiram. Canas de todos os tamanhos unidas pela mesma tradição, no mínimo, que prima pela desconformidade.


A verdadeira Matança dos Judeus
Em http://religionline.blog.com encontra-se a explicação da chamada “Matança da Páscoa” ocorrida em Lisboa em 1506. Reza a história que o país atravessava uma seca prolongada e surtos de peste. A 19 de Abril, na Igreja de São Domingos, alguém afirmou que vira o rosto de Cristo iluminado num dos altares, ao que outra pessoa terá dito que seria um reflexo do sol. Identificado como cristão-novo, foi imediatamente agredido e espancado até à morte. O rastilho estava pronto: um frade dominicano prometeu indulgências a quem matasse os hereges. Durante três dias, em plena Semana Santa cristã, Lisboa assistiu a pilhagens, violações, mortes e duas fogueiras improvisadas no Rossio e na Ribeira, com o rei e a corte fora da capital. Com o regresso do rei D. Manuel a Lisboa, os bens dos responsáveis foram confiscados, o frade instigador foi condenado à morte e o convento fechado durante alguns anos. Mas o massacre estava consumado.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Estudantes Eramus tranformam Mação numa vila cosmopolita




Vêm dos quatro pontos do planeta para estudarem arqueologia numa vila pacata do interior norte do distrito de Santarém. Alugam casas, comem em restaurantes e fazem compras no comércio local. O Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo também contribuiu para a “movida” da vila de Mação.
Tentam passar discretas junto à entrada do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, localizado em Mação. Encontram-se a assistir ao segundo dia do programa das IV Jornadas de Arqueologia Iberoamericana, na tarde da última sexta-feira, 6 de Março, momentos depois de ter sido inaugurada uma exposição de percurso táctil com réplicas de objectos e manifestações artísticas que torna acessível aos invisuais o acesso a este conhecimento arqueológico. A morena Milene Reis, de 29 anos e a loura Elisa Correia, de 27, já conhecem bem a vila. Alunas do mestrado de Arqueologia e Arte Rupestre, são ambas do Brasil e estão a viver em Mação há 6 meses, hospedadas na residência de estudantes localizada no centro da vila. “A adaptação foi fácil, as pessoas foram muito receptivas. A única coisa que estranhei foi o clima porque sou de uma região muito quente e cheguei a Portugal no Inverno que foi considerado o mais frio dos últimos anos”, refere Milene Reis. Na mesma tarde, mas na parte exterior do Museu, Maria da Saudade, 62 anos, estava atenta à confusão instalada com a chegada do autocarro com os participantes destas Jornadas. A habitante de Mação reconhece que a vila ganhou outra vida desde que o museu foi reinaugurado há dois anos. “Ás vezes vestem-se assim um bocado para o diferente mas os doutores são todos muito simpáticos” frisa a camponesa.

(reportagem completa na versão imprensa de O MIRANTE)

terça-feira, 10 de março de 2009

Em Tomar ainda se fazem bailes de finalistas como antigamente


Alunos da Escola Secundária de Santa Maria do Olival, em Tomar, prepararam uma mega-produção para a noite deste sábado, 28 de Fevereiro.

Todos os anos a história repete-se e suge o mesmo sentimento de nostalgia. É chegado o dia do Baile de Finalistas. É o momento que anuncia uma viragem, a entrada no mundo profissional ou noutro grau de ensino. O tempo passa e as diferenças que se encontram entre os bailes de antigamente e os das novas gerações são muitas. Se antigamente as moças, muitas vezes, costuravamos os seus próprios vestidos, as raparigas da nova geração escolhem-no com vários meses de antecedência, comprando os modelos que gostam ou o tecido para mandar confeccionar a uma costureira. Combinam umas com as outras as cores e compimentos dos vestidos que vão usar, “para não irem muito diferentes umas das outras”, e experimentam sapatos, penteados e maquilhagens. Menos preocupados, por norma, os rapazes pensam na indumentária na semana que antecede o grande dia. Os pais continuam, na maioria das vezes, a acompanhar os filhos neste dia mas, certamente já não se preocupam tanto com os atrevimentos dos jovens casais. A música é variada. Começa com um som mais clássico e acaba numa tenda com um DJ a colocar batidas de discoteca. Pelo menos esse vai ser o programa que vai ser vivido no próximo sábado, 28, na Escola Secundária de Santa Maria do Olival (ESSMO) em Tomar, num ambiente de gala onde o galmour de outros tempos foi recuperado.

Desde Novembro que uma comissão de dez alunos do 12º ano, das várias àreas profissionais e elementos da associação de estudantes, em conjunto com o Conselho Executivo, na pessoa da vice-presidente Natália Nogueira, uniram-se com o objectivo de edificar “o maior e melhor baile de finalistas” da história de Tomar. Querem preservar alguns aspectos a tradição, como a valsa da meia-noite, mas não esquecem daquilo que os jovens de hoje gostam. Aproveitaram todos os tempos livres, entre aulas, para organizar as ideias e contaram com o apoio de uma empresa produtora de eventos. Os alunos que participaram na organização do evento consideram que esta é “uma noite única de glamour e exclusividade”. Rosana Garcia, 17 anos, já foi a outros bailes de finalistas mas já sente um friozinho na barriga só de pensar que este é o seu último ano como estudante no Liceu. Escolheu o tecido para fazer o vestido em Janeiro e está preocupada com os pormenores de adorno. Stephano, 18 anos, vai de smoking. “Quem é finalista deve ter o cuidado de vir bem arranjado. O ambiente assim o pede, uma vez que se vai parecer com tudo menos com uma escola”, refere.

O objectivo da comissão de finalistas passa por realizar um baile que propicie uma noite “verdadeiramente inesquecível” aos participantes, contando com a presença mediática da actriz e modelo Mariana Monteiro, da série juvenil ”Morangos com Acúcar” que será a anfitriã do evento. Os alunos finalistas vão ter um lacinho ao peito para se distinguirem dos restantes convidados. Afinal, não se pode esquecer que esta é a noite deles. Para o início da noite, cerca das 20h30, o baile começa com uma actuação ap vivo de Nuno Flores da banda Corvos. É depois abrilhantado com a banda local “À Part”. No intervalo da actuação das bandas procede-se à entrega de diplomas aos finalistas pelos directores de turma. Este ano são 160 os alunos que vão concluir o 12.º ano. Á meia-noite dança-se a valsa, momento que já não acontecia nos últimos bailes de fialistas.

Já no final da noite, o evento principal desloca-se para uma tenda de 700 m2 montada no campo de jogos da escola. “Será a primeira vez que é montada uma tenda disco num baile de finalistas animada pelo Dj The Fox”, refere Francisco Tavares, presidente da Associação de Estudantes, que salienta o facto deste ser um dos disco-joquei mais famosos de Portugal. O baile é aberto a toda a população. A questão da segurança vai ser bastante acautelada, com a colaboração da PSP local e a contratação de sete elementos de segurança. O ingresso custa 10 euros para finalistas e 12 euros para não finalistas.

(reportagem completa na versão imprensa de O MIRANTE)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Artesão de Igrejas em miniatura em Santa Cita, Tomar




A igreja de Santa Cita, Tomar, localidade onde mora, foi a primeira que lhe nasceu das mãos. Foi há 17 anos. Henrique Marques, antigo serralheiro na Fábrica da Matrena, a dois quilómetros de sua casa, começou a fazer miniaturas de igrejas aos 59 anos, quando a vida, já algo amadurecida, lhe pregou a rasteira do desemprego, devido à falência da firma onde desde sempre trabalhou. “Quando a terminei deu-me um prazer de alma e coração”, recorda o artesão, agora com 76 anos mas desanimado, uma vez mais, com a crise que lhe faz escassear as encomendas. “Desde Julho que isto está muito parado. As pessoas dizem que não há dinheiro”. desabafa. Cada exemplar custa 35 euros. As miniaturas que guarda em prateleiras numa garagem em sua casa representam igrejas de concelhos diversos como Tomar, Ferreira do Zêzere, Ourém, Constância, Vila Nova da Barquinha, Entroncamento, Alcanena e Mação. As que ali se vêem não estão para a venda, servindo de molde para as que se seguem. Cada igreja é única e feita em Madeira do Futuro (MDF), levando várias camadas de verniz “para afastar a mosca” da madeira. Em tempos já sonhou em ter um museu para expor as suas miniaturas, num espaço cedido pela autarquia de Tomar ou até no edifício do Turismo, mas já não reúne essa ambição. Refere, no entanto, com orgulho que as suas igrejas estão à venda na Casa do Concelho de Tomar, em Lisboa e não esquece o tempo em que chegou a ir às escolas da região ensinar e mostrar o seu engenho aos mais pequenos. Para Henrique Marques, o valor da sua arte reside no simbolismo que carrega. “Diga-me lá se não é uma prenda bonita, a pessoa receber a miniatura da igreja onde casou ou baptizou os filhos?”, alvitra.

Artesão de moinhos de pedra em Moreiras Grandes



Quando se passa na estrada principal de Moreiras Grandes, no concelho de Torres Novas, torna-se quase impossível não reparar nos vários moinhos de vento, forrados a pedra lascada, que se encontram espalhados pelo jardim da casa de Eurico Brito, de 65 anos. O jeito para os trabalhos manuais sempre o teve. Não tivesse sido a sua profissão a de serralheiro cirúrgico, fabricando as peças que normalmente os médicos utilizam nas cirurgias. Por isso, o moinho que segura nas mãos é quase uma réplica perfeita dos originais que costuma observar pelos lados de Caldas da Rainha, terra onde nasceu. Há 30 anos, o coração levou-o a escolher viver nas proximidades de Torres Novas. Quando deixou de trabalhar, há cerca de cinco anos, a memória serviu de inspiração para começar a desenvolver esta peculiar forma de arte popular. O primeiro moinho que fez, de grandes dimensões, não o vende a ninguém. Diz que “está muito aldrabado”. Desde então, tem vindo a aperfeiçoar o trabalho e diz que já perdeu a conta aos que vendeu. A fórmula saiu da sua imaginação:“Bidons” de 200 litros servem de molde aos moinhos de grandes dimensões. Para os mais pequenos utiliza, por exemplo, as vulgares latas de leite condensado. Por fora aplica duas camadas de rede. Depois coloca uma massa, composta por brita, areia e cimento. As pedras são compradas numa pedreira e os pedaços são cortados consoante a dimensão do moinho em que se encontra a trabalhar. Um funil de lata, moldado pelas suas mãos, serve de telhado e um peso improvisado em cimento segura a vela, feita de material plástico que é mais resistente uma vez que, normalmente, estas peças servem para decorar espaços exteriores, como jardins ou varandas. Um regulamento engenhado com esferas faz mover a vela de forma natural com o vento. Eurico Brito faz os moinhos por encomenda e os preços variam entre os 50 e 250 euros. “Se pudesse ficava com todos para mim uma vez que aqui estão muitas horas de trabalho”, confessa o artesão orgulhoso na sua arte.

Dorme num carro mas almoça todos os dias no restaurante


Desgosto de amor levou-o a deixar de cortar a barba há 35 anos. Virgílio Silva tem duas casas e três carros, embora nenhum funcione, e optou por viver e dormir num deles.

Há vidas que davam um filme. A de Vírgilio Silva, morador no lugar de Roda Grande, freguesia da Asseiceira, Tomar é uma delas. Este homem de 67 anos, lúcido, bem falante e com uma postura vertical, dorme num velho Renault Major , rodeado por um monte de silvas e sucata, que tem estacionado num terreno localizado no ermo da estrada principal do lugar, que comprou há 20 anos. Não gosta muito de falar nisso porque sente que a situação não o dignifica nem niguém o vai ajudar por isso. Refere que foram as circunstâncias da vida que o obrigaram a viver nesta situação. Independente monetariamente, todos os dias vai almoçar a um restaurante das redondezas. “Á segunda e à terça-feira almoço na Praia do Ribatejo e nos outros dias vou almoçar a Constância mas quando era permitido fazer lume eu fazia aqui o comer”, explica, deslocando-se nessas ocasiões numa scooter moderna. Quando comprou aquele pedaço de terra, a ideia era instalar ali uma oficina de pintura de automóveis – profissão que exerceu durante alguns anos - mas, segundo diz, os vizinhos não concordaram com a ideia, criando problemas com as extremas do terrado, argumentando que por causa da situação chegou a ser agredido. A Junta de Freguesia da Asseiceira quis realojá-lo numa ocasião mas Virgílio Silva não aceita uma vez que tem duas casas e diz que apenas precisava de dinheiro para as arranjar. “

Na Roda Grande, a poucos metros do local onde reside, tem ainda as duas casas que eram dos pais mas problemas relacionados com partilhas com uma irmã impedem-no de ali morar. A habitação que era dos pais não tem luz , ao contrário do que acontece dentro do carro onde vive, e segundo explica o telhado teria que sofrer obras de recuperação. “Ao menos aqui estou naquilo que é meu e sinto-me bem. Tenho a minha privacidade e não pago renda”, justifica, acrescentando que teve sempre uma relação difícil com o pai, a quem chama de “carrasco”. Recorda que quando precisou de um terreno para trabalhar em pintura de automóveis o progenitor opôs-se à ideia. “Tenho estacionado junto a essa casa um Ford V8 e queria fazer uma garagem para pôr lá o carro e até isso ele não me deixou fazer”, exemplifica.

Virgilio Silva foi pintor de automóveis, profissão que aprendeu, em 1954, com 13 anos, frequentando a antiga Base Aérea de Tancos durante seis anos, como aprendiz, não ganhando nada a não ser experiência profissional. “Ao fim desse tempo entrei para o quadro, como servente mas dois anos depois fui chamado para a tropa, entre 62 e 64”, conta que veio a sair da Força Áerea devido a divergências com um capitão que “o andava a perseguir”. Foi quando regressou à Roda Grande e começou a trabalhar em pinturas e, sempre que era preciso, cultivavba os campos com uma moto cultivadora.
Reformado desde 1982, acumula a reforma da Segurança Social com outra pensão de proveniente da Força Aérea, totalizando cerca de 450 euros mensais, o que lhe permite alguma estabilidade para o seu modo de vida. “Quando recebia só da Segurança Social mal dava para comer e nem roupa podia comprar, andava vestido com o que me davam.

O frio que não tem dado tréguas ultimamente parece ser indiferente a Virgílio Silva, que aparenta ter uma saúde de ferro. “Tenho duas lâmpadas de 60 watt no carro que me aquecem e alguns cobertores”, aponta. Reconhece que difícil é tomar banho de água fria, que no Verão toma num terreno de mangueira. “O frio é psicológico”, remata enquanto se prepara para tocar acordeão e saxofone, para aquecer o ambiente junto aquela que considera ser a sua casa.



Desgosto de amor origina longo cabelo e barbas

Há um motivo romântico que justifica as longas barbas que Vírgilio Silva exibe. Namorava uma moça, que queria levar honrada para o altar e respeitou essa honra durante 2 anos e sete meses. “Repudiou-me porque a mãe dela deu-nos uma omeleta de ovos para comer que estava feita para desligar amizades”, conta. Em 1974, quando tinha 26 anos, ouviu dizer que a amada tinha casado com outro. “Senti que me tinha sujado a cara e deixei de cortar a barba pela desonra que me fizeram”. Nunca casou ou teve filhos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Artistas no Outono da vida

São três senhoras distintas mas têm algo em comum: quando descobriram que tinham talento para as artes já os seus cabelos se encontravam cheios de cãs. O MIRANTE foi conhecê-las e dá a conhecer os trabalhos de três artistas autodidactas da região.

Marlene Mendes, 66 anos: Arte com Tradição



Os trabalhos de Marlene do Céu Lopes Mendes, 66 anos, encontram-se actualmente expostos na Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere, terra de onde é natural e pela qual assume uma ligação profunda. Retratos a carvão, onde se destaca o seu e o do neto Francisco de 12 anos, quadros bordados em linho que pela sua precisão mais parecem telas pintadas a óleo, originais artigos decorativos feitos a partir de materiais recicláveis como pinhas, escamas de peixe ou cascas de nozes são alguns exemplos do que se pode ver na mostra desta artista autodidacta, que tem apenas a 4.ª classe. Telefonista da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere durante 35 anos, Marlene Mendes reformou-se há cerca de dois meses e desde então sobra-lhe mais tempo para se dedicar aquilo que só descobriu que sabia fazer com 60 anos: desenhar retratos. Para bordar a linho, arte que aprendeu com doze anos, já sabia que tinha mão. No seu portfólio conta já 60 quadros bordados a linho e quinze retratos. Diz que herdou o talento da avó “que já fazia com as mãos coisas que não via em mais lado nenhum”.
Marlene Mendes gostava de desenhar e nas horas mortas de trabalho costumava rabiscar mas não se aventurava por ali além. Até que as colegas de serviço a desafiaram a fazer retratos. “Comecei por fazer o meu retrato. Se ficasse mal ria-me de mim própria”, confessou. O resultado agradou a quem mostrou o trabalho e nem o presidente da câmara, Luis Ribeiro, escapou. Depois nunca mais parou e já teve, inclusivé, um quadro, que simboliza uma rua de Paio Mendes, em exposição na Assembleia da República. Também já expôs em Tomar e viu dois dos seus quadros irem parar a Moreni, na Roménia, cidade geminada com Ferreira do Zêzere.
A ferreirense recorda que a arte entrou “mais a sério” na sua vida num período em que se encontrava de baixa, à conta de uma depressão. Foi nessa altura que tentou que os seus bordados em linho parecessem o mais possível com pinturas. O primeiro quadro que bordou foi retirado do livro de poesia “Tojos e Rosmaninhos” de Alfredo Keil. “Quis associar a história do concelho à minha arte”, explica, salientando que a mensagem principal que os seus trabalhos trespassam é o amor que tem à sua terra e às pessoas que nela vivem. Não lamenta o facto de ter deixado passar ao lado uma carreira artística. “Os tempos eram outros e não tinha disponibilidade de tempo que tenho agora. Quero ensinar a minha arte e criar outro tipo de artesanato para a vila”, remata.

Maria Flores, 82 anos: Arte com História



História e Música são as paixões de Maria Flores, 82 anos, que foi durante toda a vida operadora de caixa, andando às volta com contas e números quando na sua cabeça tinha tintas e pincéis. Natural de Tomar, Maria Flores realizou a proeza de pintar a guache as várias dinastias representativas dos Reis de Portugal, que guarda num dossier por ordem cronológica. Noutro dossier tem guardado os desenhos a lápis de carvão das principais figuras da História de Portugal. Ali não faltam os retratos fidedignos de Fernando Pessoa, Samora Marechal, D. Duarte de Bragança, Mário Soares ou Cavaco Silva. Tem apenas a 4.ª classe e nunca tirou nenhum curso relacionado com artes. Á desconfiança começou por desenhar D. Afonso I. “Pensei que se tinha conseguido desenhar este Rei também conseguia desenhar os outros”, refere. Se bem o pensou, melhor o fez. Tirou a as imagens de livros, selos, cromos e outras da sua imaginação, através do que lia sobre o comportamento dos monarcas. Apesar de o ter feito já depois dos 60 anos, Maria Flores recorda que desde criança sente o chamamento pelas artes. “Em pequena ofereceram-me uma caixa de lápis de cor e dormi com ela debaixo da almofada”, recorda. Nas paredes de sua casa, em Marmelais de Baixo, podem-se ver quadros pintados a óleo com a temática da cidade. Um dos últimos que pintou representa o jardim do Convento de Cristo. Mais recentemente fez o brasão para a Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Zêzere. Todo ele emanou da sua imaginação. Utente do Centro de Dia do Lar Nossa Sra da Graça, situado ao lado de sua casa, Maria Flores ocupa parte do seu tempo a desenhar e a pintar. Como tal, dá por si a passar para o papel cenas que presencia no quotidiano. “Gosto muito e hei-de continuar até poder”, assegura.

Clotilde Raposo, 79 anos: Arte com Sentimento



Genuína, emocional e com uma sensibilidade acima do comum. É assim Clotilde Lopes Raposo, 79 anos, artista autodidacta que descobriu que tinha talento para as artes há apenas sete anos. Pode-se dizer que foi a melancolia que a fez acordar o talento para as artes, contava já 72 anos. Estava na sua casa, em Vila Moreira, Alcanena, e sentia-se triste, muito triste. Foi por instinto que olhou para a fotografia da filha, de olhos meigos e tranças louras, pousada em cima do móvel e lembrou-se de a desenhar num pedaço de papel que ali se encontrava ao lado. Quando acabou ficou espantada com o que tinha conseguido fazer: “Disse a mim própria: Ah! Isto até ficou bem”, recorda. Entusiamada com a descoberta, mandou comprar tintas e pincéis e pôs-se a desenhar tudo o que via, fosse um objecto na sua casa, fosse um quadro numa revista, fosse uma imagem na televisão. Muitas vezes madrugada dentro, mergulhada na solidão.”Tenho mais tendência para os retratos ou para pintar paisagens mas só aquelas que são mais fora do comum”, explica. Inicialmente não mostrava os trabalhos a ninguém. Por receio que não fossem nada de jeito. Mas certo dia mostrou a uma amiga mais entendida em arte que lhe disse que aquilo estava muito bom e teria de ser mostrado ao mundo.Telas sucederam a telas e há cerca de cinco anos, e depois de ter organizado algumas exposições em várias regiões, destacando a que esteve no posto de turismo de Fátima e que foi vista por milhares de peregrinos, abriu uma Galeria na sua terra, a poucos metros de casa, onde tem expostas dezenas de obras a aguarela, óleo, pastel e carvão.
Clotilde Raposo parou de pintar há quatro anos quando o filho faleceu, aos 53 anos, num acidente de viação. A vontade de pintar morreu nesse dia também. Premonitoriamente, o último quadro que pintou retratava um mar revolto anunciando uma tempestade. A alma de artista fala mais alto e ganha novos contornos: o da escrita. Palavras, sobretudo, que reflectem pensamentos provindos do coração dilacerado de uma mãe que não entende porque o filho partiu antes dela. Palavras de Dor.
Clotilde Raposo é, acima de tudo, autêntica. Por isso na hora de tirar a foto, não sorri. Porque o sorriso não espelha o que lhe vai na alma. Na sua alma de artista.

Elsa Ribeiro Gonçalves

domingo, 20 de julho de 2008

Guerra do Ultramar roubou-lhe o sonho de constituir família




Na vila-poema vive um ex-veterano de guerra que ainda não perdeu a esperança de, aos 58 anos, casar e ser pai. Para o efeito publicou um anúncio à procura de “um herdeiro”. Acto que se compreende depois de se ficar por dentro das linhas que teceram, até ao momento, a sua dramática história de vida.


Nascido e criado em Constância, José António Pereira, ex-veterano de guerra, procura aos 58 anos algo que nunca conseguiu até ao momento: uma família. “Não me custa estar solteiro, tenho pena é de não ter filhos”, explica este homem de meia-idade, bem-falante e educado. Recentemente publicou num jornal local um anúncio procurando uma companheira que esteja disposta a realizar o seu maior sonho. Em troca oferece 500 euros mensais. Ao longo da sua vida, foi o terceiro do género que mandou publicar mas, por diversas razões e circunstâncias, nunca teve êxito, isto apesar de ter recebido dezenas de respostas de pretendentes.
José António Pereira reformou-se da actividade de electricista há 23 anos e sofre há mais de 30 de distúrbio pós-traumático de stress de guerra. Esteve na guerra do Ultramar como radio-telegrafista, em Moçambique, entre 1972 e 1974. Estava lá há apenas seis meses quando a mãe morreu. Não pode assistir ao funeral e só um ano e meio mais tarde é que chorou junto à sua campa.
“A guerra estragou-me a vida toda. Se não tivesse ido à guerra, toda a minha vida seria diferente”, anuiu. Foi por causa da guerra que nunca casou ou teve filhos. Por causa da guerra que não quer saber de telemóveis ou telefones. Por causa da guerra encheu a casa de centenas de bibelots e recordações, de fotografias antigas, de colecções de todas as espécies e feitios. Por causa da guerra mandou afixar painéis de azulejos com diversas mensagens (Cuidado com o dono, que o cão está preso) na fachada da sua vivenda a que deu o nome de Narcisa (em homenagem á mãe) Paveia (em homenagem ao pai). José António Pereira chama-a de “O meu paraíso” e é ali que, sozinho passa grande parte do tempo de volta das suas memórias, só saindo para ir almoçar ou jantar na Santa Casa da Misericórdia. É ele que, sozinho, toma conta da casa e tenta tomar conta de si.
Os primeiros indícios da doença surgiram em Junho de 1974, poucos meses antes de regressar a Portugal. Não dormia. Nem de noite nem de dia. “Também não dizia coisa com coisa”, acrescenta. Acabou por ser internado num Hospital Psquiátrico. Regressa à metrópole em Outubro desse ano mas, segundo as suas palavras, ainda vinha pior da cabeça porque, já depois de sair do hospital, o tinham posto de sentinela à noite com a promessa que o regresso a Portugal seria mais rápido. De tratamento em tratamento, as melhoras nunca foram significativas. Já esteve internado algumas vezes num conhecido hospital de saúde mental de Lisboa, as duas últimas a seu pedido. “Estava sozinho, não tomava a medicação pelo que fui eu próprio a pedir para ser internado para ver se me ajudavam”, explica. Já conta 18 anos desde a última vez que foi internado e, desde então, leva uma vida solitária, entre as suas fotografias antigas, colecções de automóveis em miniatura, a paixão pelo Benfica

Memórias de um radio-telegrafista

“Esta noite não durmo. Quando falo nestas coisas é uma noite sem dormir mas eu conto”. E contou. Outubro de 1972. Comando de Defesa de Cabora Bassa, Moçambique. Lá fora assiste-se a um cenário de guerra. Numa pequena caserna há alguém que está responsável por um dos postos de transmissões, recebendo e enviando mensagens codificadas via-rádio. Ás seis da manhã, alguém pede socorro e ordem para evacuação. Há um soldado que levou um tiro no joelho e está a esvair-se em sangue. É emitida uma mensagem relâmpago. O resgaste deveria ser feito de helicóptero mas para evacuar o ferido para o Hospital de Tete era necessário um helicóptero-canhão para proteger o outro. Não havia nenhum e o piloto não quis ir sem resguardo. Ás três da tarde, altura em que estavam reunidas as condições para o resgate já o soldado tinha perecido, esvaido em sangue. “Uma coisa tão simples e morreu porque ninguém o socorreu. Sentia-me impotente para ajudar os outros e isso era desgastante”, conta José António Pereira.“Não andava a combater mas era pior que combater”, aponta.
Outro episódio que não esquece foi grave o acidente de jipe do qual saiu apenas com arranhões nas costas e nas mãos. Pior sorte tiveram os companheiros de viagem. “Um morreu porque lhe passou o pneu por cima. Outro, um guarda fiscal, ficou sem um braço”, recorda. Recorda ainda o ataque de que a Companhia e o posto de transmissões foi alvo, em 1973. “Cinco rampas de lançamento de foguetões dispararam a cerca de seis quilómetros do nosso quartel. A nossa sorte foi termos feito um abrigo, uma barraca de chapa ao lado da caserna de transmissões, porque já previamos que o quartel fosse atacado”, conta.
É por estas memórias e por outras que no jardim da sua casa pensa em instalar um monumento aos falecidos, deficientes e ex-combatentes da Guerra do Ultramar. Se por acaso passar por lá e estranhar o memorial lembre-se da história de José António Pereira.

sábado, 19 de julho de 2008

O búlgaro que se apaixonou por Tomar e escreveu um livro sobre isso




Chama-se “Sonhar Portokalia” e é o primeiro romance de Gualdo Tomarson, pseudónimo de Lyubomir Cholakov, um jornalista búlgaro que passou por Tomar em 2002 e rendeu-se ao encanto da cidade dos Templários. A obra ainda não está traduzida.

Aos 52 anos é a quarta vez que está em Portugal. Lyubomir Cholakov elegeu Tomar como cenário de um livro romanceado baseado na sua própria vivência enquanto emigrante de leste. Foi ali que, em 2002, o carro onde se deslocava com outro compatriota ficou sem pinga de gasolina. Saiu do veículo, olhou em redor e apaixonou-se “pelo castelo brilhante com bandeiras a ondear e uma cidade antiga com as ruas iluminadas com candeeiros em ferro”. Sem norte, alguém lhe falou de um bar da cidade que era gerido por búlgaros e foi neles que procurou comida e dormida. Na Bulgária, situada no coração dos Balcãs, era um tradutor de livros sem emprego pelo que a emigração pareceu ser a sua única saída. Trabalhou nas vindimas durante um Verão inteiro mas o trabalho acabou e foi obrigado a regressar à pátria. O livro que apresenta seis anos mais tarde retrata a experiência do jornalista em Portugal, com uma passagem especial emTomar vai ser oferecido à autarquia para, apesar de estar escrito em búlgaro, ficar disponível para consulta na biblioteca municipal à espera de uma editora que tenha interesse em apostar na sua tradução. “Este livro representa Tomar através de um olhar de um imigrante. Tomar é muito importante e conhecido na Bulgária”, acentua o jornalista búlgaro, realçando que de todas as cidades portuguesas que conheceu esta foi, sem dúvida, a que mais lhe tocou no íntimo. Recorda que, na primeira vez que esteve em Tomar, a miséria era tanta que nem cinco euros tinha para entrar no castelo que tanto o fascinou. Recorda ainda o susto que a polícia lhe pregou quando o surpreendeu a pescar em pleno Rio Nabão para matar a fome. Desconhecia que tal prática era proibida.
Apaixonado por teatro chegou ao conhecimento de Lyubomir Cholakov a existência do “Fatias de Cá”. Deixou no bar dos amigos búlgaros um projecto que tinha para uma mostra teatral. Foi assim que Carlos Carvalheiro, encenador do Fatias de Cá, o contactou e resolveu visitá-lo onde mora, numa aldeia perto da capital búlgara.“Era um projecto muto engraçado que consistia em fazer teatro durante uma semana inteira de manhã À noite. Eu li aquilo e pensei “então não querem lá ver que há gajos mais doidos que eu?!!”, conta Carlos Carvalheiro. E teve que o conhecer. “Pedimos-lhe guarida durante um fim-de-semana para discutirmos o projecto e chego lá e entendo que isto era só uma ideia”, explica. É então que o grupo decide que seria interessante criar o Fatias de Cá – Bulgária. Lyubomir Cholakov não fala português mas já actuou na peça “Pegadas dos Dragões”, onde se mostram diferentes culturas.
“Estamos a pensar em desenvolver um projecto entre Portugal e a Bulgária, assunto que vai ser discutido em Agosto no nosso congresso onde vamos definir os nossos próximos sete anos de actividade”, anuncia Carlos Carvalheiro que deseja promover projectos de ligação com a Europa e com o norte de África. Para além da Bulgária, até ao momento foram criados o Fatias de Cá-França e o Fatias de Cá – Marrocos, contando o grupo com participações especiais de actores destas nacionalidades nas suas peças. “Esta noção de abertura a outros países para nós é vital. Não há desenvolvimento com bairrismos. O mundo é mesmo uma aldeia”, remata Carlos Carvalheiro.

Obra ainda sem tradução portuguesa

“Sonhar Portokalia” é um romance de 252 páginas escrito na língua-mãe do autor e ainda sem tradução portuguesa conta um episódio da grande afluência migratória da Europa de Leste para a Ocidental, depois da queda do comunismo, em 1989. Dois búlgaros “engodados pelos contos e lendas da vida feliz e serena do Ocidente” dirigem-se a Portugal, para se salvarem da miséria. Para eles Portugal, ou melhor Portokalia, é “o país das laranjas, da alegria eterna, da despreocupação e da vida fácil”. No meio de muitas aventuras chegam, certo dia, ao país e aí a realidade depara-se bem diferente das suas expectativas. No meio do desespero e do medo, a quatro mil quilómetros da sua pátria chegam a Tomar que é descrita pelo olhar de um observador externo que pela primeira vez, num país diferente do seu, encontra a sua “atmosfera mágica”.
Carlos Carvalheiro admite a encenação da obra “quando souber do que realmente trata” ou seja quando o mesmo for traduzido para português.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

David cheio de vida um ano depois do transplante


David, o menino de Ferreira do Zêzere que recebeu parte do fígado da mãe corre traquina pela casa fora um ano depois da operação.

“Ele não pára. É um menino muito reguila. Estou muito feliz em tê-lo aqui ao pé de mim e ainda mais assim como ele está”. Ana Antunes solta a frase enquanto o seu olhar de mãe embevecido recai sobre David Tiago, que completa 2 anos no dia 20 de Junho. O menino da aldeia de Alqueidão de Santo Amaro, Ferreira do Zêzere, já não é a criança franzina e de uma impressionante cor amarela que aparece em fotografias tiradas há um ano, altura em que se submeteu a um transplante de fígado para tratar uma cirrose hepática. Está gordinho, traquina como qualquer menino da sua idade e parece respirar saúde. Adora motas, carros, jogar à bola, andar de triciclo no quintal da avó e ver desenhos animados na televisão. “É uma criança muito meiga. Uma companhia que tenho sempre comigo”, diz a mãe de 24 anos que, por enquanto, permanece em casa de baixa. “Ainda não me sinto segura para ir trabalhar. Canso-me mais facilmente e por vezes dói-me a parte do corpo que foi sujeita à operação”, explica.
Nota-se uma grande cumplicidade entre os dois e Ana explica que o menino chama por ela frequentemente. David não sabe ainda que a mãe lhe deu um bocadinho do fígado para salvar a sua vida. Não sabe mas um dia há-de saber. Porque a cicatriz na sua barriga, em forma de “T” invertido é igualzinha à cicatriz que a mãe também tem. E porque Ana fez questão de guardar todas as fotografias e recortes de jornal onde aparece a contar a sua história. “Sei que um dia o meu filho vai sentir orgulho de mim”, diz.
Ana não se arrepende de ter exposto o seu caso publicamente pois entende que pode servir de exemplo para outras mulheres que vivam a mesma situação. Na altura em que o caso foi mediatizado foi criada uma conta bancária para ajudar o casal, de parcos recursos, a conseguir pagar os medicamentos necessários para o tratamento da doença do filho. Ainda hoje há quem ajude esta família. “Há um senhor que todos os meses deposita 80 euros, o que para nós é uma grande ajuda. Gostava de lhe agradecer pessoalmente mas ele prefere manter-se incógnito”, aponta.
A operação que colocou mãe e filho lado a lado no bloco operatório do Hospital Pediátrico da Universidade de Coimbra demorou mais de 15 horas. Foi no dia 5 de Abril de 2007, depois de ter sido adiada por algumas vezes por complicações de saúde do menino. Ainda hoje, um ano depois, a mãe mantêm cautelas com o filho por ter receio que o corpo rejeite o fígado transplantado. “Quando se constipa, tem diarreia ou lhe aparecem borbulhitas no corpo fico logo assustada”, assume. Para controlo médico, o menino é observado de dois em dois meses no hospital.
David Tiago é o primeiro filho de Ana Isabel e Nuno Miguel. Uma gravidez não planeada que, no entanto, foi bem-vinda. Uma gestação de 40 semanas e 4 dias que a jovem ferreirense viveu sem sobressaltos nem angústias. Os sinais da doença do David surgiram estavam duas semanas depois nascimento. O primeiro diagnóstico foi icterícia, muito comum nos recém-nascidos, depois os médicos pensaram que fosse hepatite. Só mais tarde descobriram que se tratava de uma cirrose hepática. Para o menino se salvar teria que ser sujeito a um transplante hepático. A mãe, assim que soube ser dadora compatível, não hesitou por um momento. “Para o salvar, fazia tudo de novo”, confessando que, apesar de ter passado por esta experiência delicada, não coloca de lado a hipótese de voltar a ser aquilo que também a ela a enche de orgulho: mãe.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Jogadoras sentem que têm “as pernas cortadas” no mundo do futebol

Atletas femininas abandonam cedo a carreira desportiva. Universidade, casamento, emprego ou mesmo discriminação são obstáculo para as mulheres que sonham em fazer carreira atrás de uma bola.

Alta, morena e de cabelo curto, Tânia Arsénio, 19 anos, é uma jovem atleta que apesar de ser parca nas palavras sabe meter o dedo na ferida. “Ás vezes as pessoas vão ver um jogo de futsal feminino não é por gostarem do desporto mas sim para ver se as mulheres também se desenrascam a jogar”, aponta. “O que acontece, quase sempre, é que acabam por gozar com certas situações inerentes ao próprio desporto”, lamenta a O MIRANTE.

A atleta, guarda-redes da Associação Desportiva Fazendense (ADF) desde há quatro anos, foi convocada a 10 de Dezembro de 2004, para integrar a Selecção Nacional Sub-18. Como tal, participou num estágio de três dias no Centro de Estágios e Formação Desportiva de Rio Maior onde participou em várias sessões de treinos. Apesar da experiência ter ficado por aí, Tânia Arsénio não esquece aqueles dias. “Apesar de futebol de 11 ser diferente do futsal a experiência é enriquecedora e aprende-se imenso nos dias que lá estamos”, salienta a jovem que, curiosamente, deu os primeiros passos na actividade desportiva a jogar andebol.

Tânia Arsénio considera que em Portugal não há espaço para as mulheres que querem prosseguir com uma carreira no desporto. “Profissionalmente não acredito no nosso país. Sei que vou ter que conciliar com a minha actividade profissional com o futsal pelo que quero tirar um curso na área de gestão hoteleira e turística”, explicou a O MIRANTE, deixando uma ressalva: “É uma pena o país não investir mais no desporto feminino… Está a perder muitos talentos que podiam dar muitas alegrias aos portugueses”. Também a atleta da equipa de futsal feminino do Clube Desportivo do Cartaxo, Joana Gomes, 17 anos, que já conta com três chamadas à selecção, é da opinião que Portugal não investe no desporto feminino. “Em muitos clubes as equipas femininas são as primeiras a acabar assim que surgem dificuldades financeiras. Além disso como não há muitas equipas torna-se difícil organizar campeonatos femininos”, argumenta a jovem guarda-redes que equaciona a hipótese de fazer vir a fazer carreira no futebol fora do país.

Dina Lourenço, actualmente com 22 anos, foi convocada pela primeira vez para a Selecção de futebol Sub-19 em Março de 2002. Era nessa altura jogadora da equipa de futsal feminino do Clube Desportivo do Cartaxo. Os treinos no estágio correram bem, o seu talento para as lides da bola foi reconhecido pelo que chegou a participar em 4 jogos ao serviço da selecção das quinas. “A experiência foi muito boa, conhecemos pessoas de todo o país e aprendemos bastante nesses dias”, disse a O MIRANTE.

Cinco anos volvidos, a atleta a quem era reconhecido um grande potencial enquanto jogadora encontra-se a trabalhar como operária numa fábrica de processamento de carnes na Zona Industrial de Santarém. “Em Portugal é muito difícil para as mulheres fazerem carreira no futsal ou no futebol porque temos que trabalhar e treinar ao mesmo tempo enquanto que em alguns países as mulheres já têm a oportunidade de fazer isto profissionalmente”, testemunha a atleta. Apesar de estar empregada, Dina Lourenço continua a treinar três vezes por semana ao serviço do Carnide Clube, em Lisboa. “Muitos vezes saio do trabalho e nem passo por casa, vou directa para Lisboa para poder treinar”, explica a jovem, lamentando que em Portugal não se aposte no futebol feminino. “Eu gostava muito de continuar a jogar futsal mas…”, deixa no ar a questão.

Futsal feminino sem Selecção

Para José Carlos Marques, treinador de uma equipa feminina da Escola de Futebol de Tomar são vários os factores que levam as mulheres a abandonar a prática da modalidade. “Pela minha experiência, reconheço que a maioria das minhas atletas abandona por volta dos 18 anos quando entra na Universidade porque se torna difícil conciliar. As que vão ficando, a certa altura, sentem que são muito velhas em relação às restantes jogadoras da equipa cuja é de idades é 16-17 anos”, explica o técnico que reconhece a falta de oportunidades que existem para as mulheres. “Outra das dificuldades será quando nasce um filho uma vez que tem que se dar o abandono total da prática desportiva”, aponta o técnico tomarense que aponta que a maioria fica, no máximo, até aos 23 anos.
Apesar de, neste momento, o Futsal ser o desporto colectivo mais praticado por mulheres em Portugal, é o único que não têm campeonato, nem Selecção Nacional uma vez que a mesma acabou, a mando da Federação Portuguesa de Futebol. “Para além de não ser fácil profissionalizar-nos no nosso país, ainda decidiram acabar com a selecção nacional de futsal feminino o que é uma estupidez porque existem tantos talentos a nível de futsal feminino que a federação está a desperdiçar”, defende Tânia Arsénio que aproveita para informar que, desde Dezembro de 2007, circula uma petição on-line (http://seleccaonacional-peticao-online.nireblog.com) com vista à reactivação da Selecção Nacional de Futsal Feminino.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Jovem do Entroncamento quer ser fenómeno no mundo da música


Pedro Dionísio, 29 anos, professor de educação física, quer singrar como cantor em Portugal mas com os pés bem assentes na terra. O sonho toca os limites mas para já vai divulgando os seus originais ao ritmo de um por mês numa página de Internet concebida para o efeito.

“12 meses, 12 temas, 12 downloads”. É o que se lê assim que entramos na página www.dyonysyo.com. Neste sítio os intranautas têm a possibilidade de fazerem um download gratuito das músicas de Pedro Dyonyso, nome artístico do jovem que nasceu a 29 de Dezembro de 1978 em Torres Novas mas sempre viveu no Entroncamento. A ideia é no final do ano reunir as 12 carruagens de músicas de originais numa colectânea de nome “Cópia Legal”.

O gosto do jovem pela música tocou-lhe forte aos 13 anos e nunca mais o largou. Pedro Dyonysio chegou a ter um ano e meio de formação musical (guitarra clássica) no Orfeão do Entroncamento mas depois decidiu ser autodidacta. “Quando dei por mim já andava por aí a tocar em todo o lado, como em festas de escolas e bares e a partir daí foram surgindo uns projectos atrás dos outros”, contou. Há 4 anos lançou em
Quando chegou a altura de tirar um curso superior desceu à terra e entrou para Educação Física na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, na Universidade de Coimbra, curso que lhe garantiu um emprego no final da licenciatura. “A música é um escape para mim. Na altura ponderei bem e cheguei à conclusão que tinha muito mais saídas profissionais com o curso de Educação Física do que com um de música”, atesta.

Pelo sexto ano lectivo a dar aulas numa escola secundária, o projecto musical em que está envolvido actualmente acaba por lhe absorver todo o tempo que sobra. A ideia surgiu-lhe em Novembro e só precisou de arranjar alguém para lhe conceber a página, que ficou pronta em Dezembro, altura em que preparou a primeira música e o videoclip para lançar em Janeiro. “Este projecto acaba por ser a apresentação de um álbum só que em vez de estar a usar uma editora para fazê-lo chegar ao público faço isto tudo através deste site”, explica, salientando que ali as pessoas encontram tudo o que sai normalmente num CD. “As letras e músicas estão todas aqui, coloco os grafismos como se fosse a capa de um CD e a distribuição é feita pela Internet através de email ou hi5”, prossegue, acreditando que desta maneira a sua música chega a qualquer lado do mundo.

“A Máquina”, a primeira música que Pedro Dyonysio apresentou no website, programado pelo webmaster Miguel Nogueira, é dedicada à sua cidade. “Achei que era interessante fazer uma pequena homenagem ao Entroncamento uma vez que esta viagem parte a partir daqui. Para mim o comboio é o aspecto primordial do Entroncamento e não os fenómenos como muita gente acredita”, aponta o jovem. A música tem uma sonoridade cativante e o videoclip, onde o avô do jovem faz uma perninha como figurante, já mereceu honras televisivas a 14 de Março. Seguiram-se originais “Linha de Loucura” (Fevereiro) e Clã dos Malvados (Março), todos cantados em português.

O jovem quer chegar “até onde o deixarem ir” e, por agora, aposta na divulgação do seu trabalho. “Penso que hoje em dia os álbuns de música já não são fonte de rendimento para os músicos devido à pirataria. No meu site o download é legal pelo que passa por ser uma forma de combater a pirataria”, aponta, reforçando que “a ideia passa por divulgar as músicas e aguardar pelas oportunidades que essa divulgação possa ocasionar.
“Quero dar um passo de cada vez e fazer o melhor possível ao longo deste trajecto. No final do ano existe a hipótese de reunir estas músicas todas e organizar um espectáculo, com outros músicos, onde estas músicas possam ser tocadas ao vivo, contando com alguns patrocínios”, aponta. E termina: “O projecto já iniciou viagem e a partir daqui só Deus sabe o que me reserva”.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Idoso burlado em cinco mil euros




Um idoso foi abordado numa rua de Tomar por três homens “bem-vestidos” e acabou por ficar sem cinco mil euros da sua conta, que levantou no interior de uma agência bancária em Lisboa, para onde o levaram. Em troca deram-lhe uma carteira cheia de papéis
.

Sentado na soleira da porta da sua casa, em Porto Mendo (Madalena, Tomar) encontrámos um homem completamente desolado, na passada segunda-feira, 28 de Janeiro. “Fui endrominado”, explicou ao nosso jornal Manuel Peres Nunes, 72 anos, pedreiro reformado, não conseguido conter as lágrimas enquanto nos confirmava ter sido alvo de uma grande burla.
Tudo aconteceu na sexta-feira, 25, pelas 10H30, quando estacionou a sua motorizada na Rua dos Arcos, em Tomar e se preparava para ir à Caixa Geral de Depósitos. “Estava em frente à farmácia da Misericórdia quando um indivíduo sai de um carro, olha-me com os olhos muito arregalados e pergunta-me se não conheço um construtor fulano tal”, começou por explicar ao nosso jornal.
Manuel Peres Nunes não sabe muito bem explicar o que se passou em seguida mas a conversa envolveu dinheiro e empréstimos monetários pelo que, pouco tempo depois, acabou dentro da viatura deste homem, que se fazia acompanhar por mais dois indivíduos, que aparentavam ter cerca de 35/40 anos, e seguiram em direcção a Lisboa. Antes, já lhes havia mostrado a sua caderneta onde os burlões verificaram que o idoso tinha depositado na conta cerca de 15 mil euros, fruto da poupança de uma vida inteira dedicada ao trabalho duro. O idoso só parou de trabalhar aos 70 anos para poder usufruir de uma reforma de cerca de 360 euros mensais.
Pelo trajecto os homens iam falando que necessitavam de dinheiro para mandar rezar “uma missa por alma a alguém” e mal chegaram à capital pararam numa agência da Caixa Geral de Depósitos, que o septuagenário não soube especificar qual era, e ali entrou acompanhado por um dos homens e pediu em seguida para efectuar um levantamento de cinco mil euros, dinheiro que guardou num envelope.
Os três indivíduos terão depois exigido o dinheiro ao idoso e, já com o envelope na mão, disseram-lhe para aguardar por eles ali na rua, que viriam mais tarde. Em troca deram-lhe uma pasta preta que diziam conter dinheiro mas que o idoso viria a descobrir que estava cheia de papéis. “Primeiro ainda lhes disse que não lhes dava dinheiro nenhum mas depois começaram a pressionar-me e comecei a pensar que ainda me matavam e acabei por lhes entregar o dinheiro todo”, contou muito triste por ter sido vítima de burla.
Sozinho na capital, “em jejum” e sem nada poder fazer, a Manuel Peres Nunes só restou almoçar “ com o dinheiro que tinha na carteira”, meter-se no comboio e regressar a Tomar, o que aconteceu cerca das 18 horas.
Manuel Peres Nunes optou por não fazer queixa na polícia. “Na polícia não podem fazer nada. Anda uma pessoa uma vida inteira a trabalhar para ficar sem mil contos desta maneira”, atestou com os olhos rasos de lágrimas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Aluno chama “frustrado” a professor e acaba suspenso


Um aluno do 10.º ano da Escola Secundária Jácome Ratton, em Tomar, queixa-se que o professor de Economia o terá agredido no decorrer de uma aula que já não começou bem mas o Conselho Executivo nega a existência de qualquer agressão e justifica a suspensão devido a um acumular de situações de mau comportamento por parte do aluno.

O caso aconteceu na quarta-feira, dia 16 de Janeiro, pelas 16 horas.
O professor terá perdido as estribeiras quando o aluno o chamou de “frustrado” e empurrou-o para cima de mesa e uma cadeira, após o que este caiu no chão. De seguida, e segundo este aluno, os colegas solidarizaram-se com o jovem e foram, em grupo, explicar a situação ao Conselho Executivo, reunião onde o professor não falou por se mostrar muito nervoso com toda a situação, abandonando a escola em seguida.
Leandro Domingos, 19 anos, disse a “O Templário” que a aula de Economia “já tinha começado mal”, estando o professor muito exaltado desde o início da mesma e que este já tinha colocado “metade da turma na rua” por coisas mínimas ao que o aluno lhe terá chamado a atenção referindo que este comportamento só poderia advir do facto deste estar “frustado”. Chamado à atenção pelo professor, que lecciona naquela escola há 18 anos, Leandro Domingos terá voltado a insistir que o facto do docente mandar tantos alunos para a rua só poderia ser “frustração” e foi aí que a situação ganhou contornos mais graves.
“O professor, desde o princípio do ano, vem criando mal-estar na aula e manda toda a gente para a rua, por coisas mínimas. Nesta aula não consegui aguentar mais o professor assim e disse-lhe para ir ao psicólogo porque devia estar frustado ao que ele vira-se de costas e disse-me que dava um estalo”, contou o aluno. Após a ameaça de estalos por parte do docente o aluno voltou a ripostar: “Dá-me um estalo: isso é mesmo frustração”. Foi aí que, segundo o aluno, o professor virou costas e mandou-o para cima de uma mesa e cadeira, após o que ficou estatelado no chão.
Os alunos não podem bater num professor mas os professores podem agarrar num aluno e mandá-lo para cima de uma cadeira e não lhes acontece nada”, apontou outro aluno, primo do visado, revoltado com a suspensão do colega.
Leandro Domingos, aluno do curso de Informática de Gestão, é repetente do 10.º ano pela terceira vez. Vive com os avós nos arredores da cidade e é apontado pelos professores como um aluno com problemas de comportamento. Apesar disso, foi a primeira vez que foi suspenso. “Posso ter alguma culpa mas não acho que o que eu disse justifica o que ele fez”, remata o jovem.
Maria João Morais, do Conselho Executivo, explicou a “O Templário” que “não houve qualquer agressão” e que a suspensão do aluno resultou de “um acumular de situações”.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Coveiro de Tomar já foi rico


Em 1996 Carlos Manuel Ferreira Simões, coveiro municipal, fez um seis no totoloto. Passados dez anos “O Templário” quis saber o que aconteceu ao tomarense que um dia já foi milionário: gastou quase toda a fortuna na construção de uma vivenda e continuou a trabalhar como coveiro.

Fomos encontrá-lo no cemitério de Marmelais, onde trabalha há 20 anos. Combinado o trabalho para dali a dois dias, Carlos Simões, 41 anos, aceitou falar sobre o dia em que viu a sua vida mudar: 5 de Fevereiro de 1996. Tinha 31 anos e ganhou, na altura, mais de 23 mil contos no totoloto.
“Lembro-me desse dia porque andava a abrir uma cova para um senhor e, na lápide dele está lá essa data”, recordou. Em anos anteriores, Carlos Simões já jogava com mais 19 pessoas numa sociedade mas, por azar, desistiram da sociedade umas semanas antes de poderem vir a ser contemplados com o primeiro prémio. “Se tivéssemos continuado a jogar na sociedade, e com aquela chave, tínhamos feito um seis e o suplementar. Na altura, calhava-nos dois mil contos a cada um”, contou.
O episódio causou-lhe algum transtorno pelo que decidiu continuar a apostar na sorte grande, desta vez, sem sócios à mistura. Andou quase um ano a jogar sozinho até que chegou o dia em que foi bafejado pela sorte grande. “Tinha jogado com duas chaves de oito números e foi o senhor Zé que me viu os totolotos num café onde eu ia comer qualquer coisa, que ficava por detrás do cemitério velho, é que me disse que num deles eu tinha um seis… Depois demos um abraço”, recordou ao nosso jornal. Nesse dia ficou fora de si e, assim que pode, dirigiu-se à Papelaria Nova, em Tomar, onde tinha metido o boletim, para confirmar o que, até ali lhe parecia um sonho. “Na papelaria não me quiseram dizer nada mas mais tarde recebi um telefonema a dizer que tinha tido um seis e a perguntar se queria ir à televisão”, relatou-nos. Nessa semana o primeiro prémio foi dividido por Carlos Simões e mais cinco totalistas. “Naquele dia à noite, não tenho vergonha de dizer que chorei”, confessou.
Passaram 20 dias até que recebeu o cheque no valor de 23 mil e 600 contos. O patrão ajudou-o a tratar de arranjar o cartão multibanco. “Levei o cheque no bolso e dirigi-me à Caixa Geral de Depósitos na Alameda Um de Março para depositar o cheque e lembro-me que até o empregado ficou admirado com o cheque”, conta a sorrir.
Carlos Simões recorda também que, na altura, foi, na companhia de um colega, ao programa “Clube dos Totalistas”, apresentado por Carlos Ribeiro, onde contou a sua história. “Gostei muito de lá ir e fiquei com a cassette do programa para recordação”, refere. “Na altura brincaram comigo e perguntaram-me que tipo de noiva eu queria arranjar. Eu disse que tinha que ser trabalhadora, honesta e que me desse a volta à cabeça para me ‘rapar’ o dinheiro todo”, contou a rir.

18 Mil contos gastos na casa

A maior parte do dinheiro que lhe saiu no totoloto foi investido na construção da casa de que muito se orgulha e que hoje tem na Peralva. “Toda a gente gozava por comigo por causa de eu viver com a minha mãe numa casa velha e que, de ano para ano, se degradava mais pelo que eu já era para pedir dinheiro ao banco para as obras e decidi fazer uma casa nova, no mesmo local”, explicou. “Desde aí nunca mais ninguém gozou”, acrescentou. Uma alegria que deu à sua mãe, Maria de Jesus, entretanto já falecida. “O resto do dinheiro foi para o dia-a-dia e acabou por se gastar”, contou.
A vivenda que construiu – uma das que mais vista faz na pequena aldeia – tem 8 assoalhadas e cerca de 15 m2. É ali que actualmente vive com a mulher, Carla Subtil e com a pequena Maria Vitória, de 4 anos. Uma bonita família que não tinha quando lhe saiu a fortuna, dado que era ainda “solteiro e bom rapaz”.
Carlos Simões recorda que, depois de lhe ter saído o totoloto, houve muita gente que se aproximou dele para lhe pedir dinheiro. E também não faltaram “moças casadoiras”, subitamente interessadas nos seus belos olhos. “Houve uma que até disse à minha mãe que lhe fazia uma permanente de graça”, diz o ex-milionário. Carlos Simões não foi em cantigas e apenas deu 150 contos para a igreja da aldeia, para agradecer a sorte.
As pessoas admiravam-se de Carlos Simões continuar a trabalhar como coveiro e, ainda por mais, continuar a utilizar a bicicleta como meio de transporte. “Não ia deixar de trabalhar. Estava a construir uma casa e sabia que o dinheiro se estava a gastar”, afiançou. A construção da nova vivenda durou pouco mais de um ano.

A tentação do jogo

A nova casa já estava construída há 2 anos quando Carlos Simões encontrou o que ainda lhe fazia falta: uma mulher. “Casei com 34 anos, um mês depois de começar a namorar”, recordou. Conheceu Carla, que trabalhava num café das redondezas, e começou a falar com ela nas viagens de autocarro. Gostaram um do outro, deram um passeio até á praia e decidiram casar. “Eu não sabia que lhe tinha calhado o totoloto e que ele vivia numa casa assim”, contou Carla ao nosso jornal, revelando que ficou surpreendida quando viu a casa do noivo pela primeira vez. “Não estava nada à espera que ele tivesse uma casa assim na aldeia”, contou a jovem. Dois anos depois nasceu Maria Vitória, a menina dos seus olhos e que agora, com 5 anos, é a sua maior riqueza.
Carlos Simões continuou sempre a jogar no totoloto e houve semanas em que gastava mais de 15 contos em apostas semanais em jogo. “Chegou a calhar-me mais algum dinheiro na lotaria e deu para comprar o berço para a minha filha”, recorda. A mulher conseguiu convencê-lo, a muito custo, a não gastar tanto dinheiro no jogo, conselho que acatou de há uns anos para cá. Actualmente, continua a apostar, com mais um sócio, numa chave de totoloto porque, tal como outros que já foram bafejados pela sorte grande um dia, acredita religiosamente que o totoloto lhe vai sair outra vez.



Homem dos sete ofícios

Mesmo depois de saber que tinha sido um dos cinco portugueses contemplados com um seis no totoloto, Carlos Simões nunca deixou de trabalhar como coveiro, profissão que exerce sem interrupção há 20 anos. “É um trabalho que não me importo de fazer. Eu costumo dizer que eles não reclamam”, refere com humor.
Actualmente, continua a dirigir-se da Peralva, uma aldeia da freguesia de Pailavo, para o cemitério de Marmelais, em Tomar. Percorreu muitas vezes esta distância, cerca de 18 quilómetros, na sua bicicleta ou então de autocarro. Homem muito trabalhador, aproveita os fins-de-semana ainda para fazer alguns “biscates”, seja a limpar-chaminés, oliveiras ou a cortar lenha com um moto-serra. Porque um homem “tem que fazer pela vida” e há trabalhos que tem que ser feitos.

(publicado na edição n.º 938 do Jornal "O Templário" a 14 de Dezembro de 2006)

Mãe – coragem dá vida pelo filho




Ana Antunes escreve aos 23 anos a passagem mais delicada da sua jovem vida. Prepara-se para doar parte do fígado ao seu filho David, de 8 meses, a quem foi diagnosticada uma cirrose hepática. É a única maneira de salvar o seu menino. Uma história comovente que se passa numa aldeia do concelho de Ferreira do Zêzere.


Foi na pequena aldeia de Alqueidão de Santo Amaro que encontrámos Ana Antunes, a mãe que amanhã, 16 de Março, vai ser internada no Hospital Pediátrico da Universidade de Coimbra para submeter-se a uma delicada intervenção cirúrgica que vai salvar a vida do filho de apenas oito meses. Ana, de 23 anos, prepara-se para doar parte do fígado, um órgão que acabará por se regenerar naturalmente, para tratar a cirrose hepática de que sofre o bebé que deu à luz a 20 de Junho de 2005, depois de várias horas de trabalho de parto.
David Tiago é o primeiro filho de Ana e Nuno Miguel. O casal não planeou a gravidez que, no entanto, foi bem-vinda. “Nunca pensei que tivesse que passar por isto. Não foi uma gravidez planeada. Andávamos a tentar, se o bebé viesse… vinha”, começou por explicar a “O Templário”.
Uma gravidez de 40 semanas e 4 dias que a jovem ferreirense viveu sem sobressaltos nem angústias. “Foi uma gravidez normalíssima, sem problemas, nem enjoos”, atestou, salientando que só sofreu nas horas que antecederam o parto, no Hospital Bissaya Barreto, em Coimbra. “Estive muitas horas para o ter e teve que ser com ventosas”, explicou. Ali esteve com o bebé internada 4 dias, como é habitual em todas as recém-mamãs, até receber alta.
Os primeiros sinais da doença do David surgiram estavam duas semanas depois nascimento. “Começou-se a fazer amarelo e fiquei aflita. Fui ao Centro de Saúde, onde estava a ser acompanhada pelo médico de família, que me aconselhou a expor o bebé à claridade porque era icterícia e, em princípio, depois passava”, relatou. Mas, contrariamente à informação médica, o problema não só não passou como se foi agravando cada vez mais. “Passou um mês e sete dias, vi que ele estava cada vez mais amarelo pelo que fui à pediatria do Hospital e ali disseram-me que era hepatite”, recorda Ana Antunes. Uma notícia que quase fez ruir o seu mundo. “De hepatite a doença evoluiu para cirrose e agora só o transplante o salvará”, lamenta.
Questionada sobre as causas desta doença no seu filho, Ana Antunes, que também procurou saber o mesmo refere que a médica lhe adiantou uma explicação mas que até pode nem ser a real causa da doença. “Disseram-me que os bebés tanto vão buscar células boas como más… ele foi buscar as más”, refere.


Operação delicada


Quem observa o pequeno David Tiago a dormir serenamente, enrolado a um cobertor, não se apercebe que sofre desta doença. “Ele é um bebé que sempre foi muito mexido. Se ouvir vozes olha logo na direcção do som e quer agarrar nas coisas, apesar de não ter forças nas pernas nem nos braços porque o corpo quando não tem proteínas suficientes vai buscá-las a esses membros. Mas de resto quem olha para ele diz que é um bebé normal e que não tem doença nenhuma”, conta enquanto olha para o rebento.
A jovem mãe está consciente do risco de vida que ambos correm mas não pensou duas vezes assim que a médica a informou que era dadora compatível e lhe perguntou se queria dar parte do fígado ao filho. “Quando esteve internado esta última vez, entre 31 de Janeiro e 27 de Fevereiro, a médica disse-me que ele, para se salvar, tinha que ser transplantado o mais rapidamente possível. Perguntou-me qual era o meu grupo sanguíneo, fiz todas as análises e exames necessários e, já depois de ter os resultados, a médica conversou comigo. Depois disse-me que eu era compatível e perguntou-me se podia doar um pedaço do meu fígado para o salvar. Eu disse logo que sim porque sei que o meu filho não pode estar mais tempo na lista de espera porque a situação agrava-se muito mais”, relatou Ana Antunes ao nosso jornal. “Sou mãe e quero que ele continue com a vida dele para a frente”.
No dia 16 de Março, Ana Antunes, vai ser internada no Hospital pediátrico de Coimbra, único local do País onde se realiza este tipo de transplante, para tentar salvar a vida do seu filho. “Ainda não sei a data da operação, mas a partir desse dia pode realizar-se a qualquer momento”, disse. Ana está consciente de que será uma operação delicada e que a taxa de sobrevivência de pacientes sujeitos a transplante com dador vivo é superior a 90 por cento. “É uma operação muito delicada, muito morosa e tem vários riscos associados, como a possibilidade de se dar um derrame – é bom a gente nem pensar nisso. Há também o risco de ele rejeitar o fígado, já depois da operação. Era bom que não, que tudo corresse bem”, desabafa, revelando-se uma pessoa positiva.
Uma luta que já conheceu um primeiro ensaio a 7 de Março, quando Ana Antunes se deslocou aos Hospitais da Universidade de Coimbra para ser internada. “Mandaram-me para casa mais uma semana para que ele ganhasse mais forças mas eu não me importava de já ter ficado lá e fazer a operação no outro dia. Para mim quanto mais depressa ele fizer a operação melhor”, referiu.
“Há muita gente que chega aqui ao pé de mim, para me dar apoio, e chora. Não chorem. Lutem pela vida, como eu estou a lutar pela vida do meu filho”, reforça esta mãe – coragem.

(publicado na edição n.º 951 do Jornal O Templário a 15 de Março de 2006)

Antonieta já tem um computador



O sorriso de Antonieta abriu-se mais ainda desde que, no passado dia 29 de Março, recebeu um computador e equipamento informático perfeitamente adaptado às suas necessidades específicas. A jovem sente-se agora mais ligada ao mundo exterior.


Antonieta Monteiro, a jovem que sofre de esclerose múltipla, doença para a qual ainda não existe cura, e mora na povoação de Hortinha, na freguesia da Junceira, já tem instalado em casa o tão desejado computador com acesso à Internet. Um sonho concretizado com a ajuda da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa da Serra que ficou a conhecer a história desta jovem através das páginas do nosso jornal (trabalho publicado a 29 de Novembro de 2006) e promoveu uma subscrição de fundos com vista à aquisição deste computador, perfeitamente estudado para ser adaptado às necessidades específicas da tomarense. Á onda de solidariedade aderiram, segundo Abel Oliveira, presidente da associação, muitos anónimos, leitores do jornal e emigrantes tomarenses.
“Fiquei tão entusiasmada no dia que vieram cá montar o computador que até fiquei com os músculos do pescoço paralisados”, começou por explicar ao nosso jornal no dia em que a voltamos a visitar em casa dos pais.
“Foi no dia 929 do meu “exílio” que veio cá a D. Lurdes e o Sr. Abel (da Associação Cultural da Serra) e o António (da empresa informática Mega PC) e eu fiquei ali, no canto do meu quarto, a ver a montagem do equipamento”, disse-nos. Nesse dia, uma quinta-feira, não teve oportunidade de mexer no computador porque o entusiasmo provocado pela oferta, e a conversa com as visitas, a cansou em demasiado. Mas no dia seguinte tratou logo de configurar o ecrãn de 21 polegadas ao seu gosto (definindo como fundo a fotografia de duas árvores) e de começar a adaptação à trackball (que substitui o rato) e que está a ser feita lentamente.
Antonieta tem agora muitos sonhos e projectos que quer concretizar. Um deles passa pela escrita e talvez pela publicação dessas crónicas num jornal, textos que pode escrever em casa e enviar através de e-mail, ferramentas que domina na perfeição, não tivesse ela formação superior em informática de gestão.
Com a oferta deste computador – que muito agradece – a jovem fica agora com um encargo mensal de 30 euros por mês, dado ter que pagar a assinatura do serviço de Internet. “Vai-me custar a pagar a Internet, cerca de 30 euros por mês, mas tendo em conta o que já me ofereceram, e que sei que não é nada barato, já foi muito bom”, indicou. “Sei que por vezes podem achar que tenho falta de modéstia mas eu sou mesmo assim. Quero é que fiquem a saber que estou mesmo muito agradecida a todos os que me ajudaram a ter este equipamento”, acentuou. “Espero passar agora a ter mais qualidade de vida. Eu não vou morrer amanhã, nem depois de amanhã, nem daqui a uns anos… pelo que gostava de trabalhar de vez em quando”, disse.
Quando lhe perguntámos se estaria disponível para um dia poder desenvolver aquilo que se chama tele-trabalho, a jovem mostrou-se realista: “A minha especialidade neste momento é o trabalho voluntário…Vou dando um passo de cada vez… neste momento ainda não me posso comprometer e assegurar o cumprimento de um horário de trabalho”.
Para o próximo dia 22 de Abril está agendada a entrega simbólica do equipamento a Antonieta Monteiro, um acontecimento a ter lugar na sede da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa da Serra. Um momento que retrata a felicidade de alguém que, sendo tão jovem e sofrendo de uma doença incurável, conseguiu voltar a ter a capacidade de sonhar, algo que pensava já ter perdido.



Da Hortinha para o mundo
“Sinto que morri para o mundo” era o título da reportagem que “O Templário”, publicou em Novembro do ano passado. Na ocasião, e quando perguntámos à jovem como fazia para preencher o vazio dos seus dias, Antonieta disse-nos que “não fazia nada” uma vez que da Hortinha para o mundo não existia qualquer ligação.
Foi então que indicou que se tivesse um computador convenientemente adaptado às suas dificuldades talvez lhe fosse mais fácil sobreviver à passagem dos dias. “Tenho saudades da informática, de mexer num computador…”, confessou na altura.