Quando se passa na estrada principal de Moreiras Grandes, no concelho de Torres Novas, torna-se quase impossível não reparar nos vários moinhos de vento, forrados a pedra lascada, que se encontram espalhados pelo jardim da casa de Eurico Brito, de 65 anos. O jeito para os trabalhos manuais sempre o teve. Não tivesse sido a sua profissão a de serralheiro cirúrgico, fabricando as peças que normalmente os médicos utilizam nas cirurgias. Por isso, o moinho que segura nas mãos é quase uma réplica perfeita dos originais que costuma observar pelos lados de Caldas da Rainha, terra onde nasceu. Há 30 anos, o coração levou-o a escolher viver nas proximidades de Torres Novas. Quando deixou de trabalhar, há cerca de cinco anos, a memória serviu de inspiração para começar a desenvolver esta peculiar forma de arte popular. O primeiro moinho que fez, de grandes dimensões, não o vende a ninguém. Diz que “está muito aldrabado”. Desde então, tem vindo a aperfeiçoar o trabalho e diz que já perdeu a conta aos que vendeu. A fórmula saiu da sua imaginação:“Bidons” de 200 litros servem de molde aos moinhos de grandes dimensões. Para os mais pequenos utiliza, por exemplo, as vulgares latas de leite condensado. Por fora aplica duas camadas de rede. Depois coloca uma massa, composta por brita, areia e cimento. As pedras são compradas numa pedreira e os pedaços são cortados consoante a dimensão do moinho em que se encontra a trabalhar. Um funil de lata, moldado pelas suas mãos, serve de telhado e um peso improvisado em cimento segura a vela, feita de material plástico que é mais resistente uma vez que, normalmente, estas peças servem para decorar espaços exteriores, como jardins ou varandas. Um regulamento engenhado com esferas faz mover a vela de forma natural com o vento. Eurico Brito faz os moinhos por encomenda e os preços variam entre os 50 e 250 euros. “Se pudesse ficava com todos para mim uma vez que aqui estão muitas horas de trabalho”, confessa o artesão orgulhoso na sua arte.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Artesão de moinhos de pedra em Moreiras Grandes
Quando se passa na estrada principal de Moreiras Grandes, no concelho de Torres Novas, torna-se quase impossível não reparar nos vários moinhos de vento, forrados a pedra lascada, que se encontram espalhados pelo jardim da casa de Eurico Brito, de 65 anos. O jeito para os trabalhos manuais sempre o teve. Não tivesse sido a sua profissão a de serralheiro cirúrgico, fabricando as peças que normalmente os médicos utilizam nas cirurgias. Por isso, o moinho que segura nas mãos é quase uma réplica perfeita dos originais que costuma observar pelos lados de Caldas da Rainha, terra onde nasceu. Há 30 anos, o coração levou-o a escolher viver nas proximidades de Torres Novas. Quando deixou de trabalhar, há cerca de cinco anos, a memória serviu de inspiração para começar a desenvolver esta peculiar forma de arte popular. O primeiro moinho que fez, de grandes dimensões, não o vende a ninguém. Diz que “está muito aldrabado”. Desde então, tem vindo a aperfeiçoar o trabalho e diz que já perdeu a conta aos que vendeu. A fórmula saiu da sua imaginação:“Bidons” de 200 litros servem de molde aos moinhos de grandes dimensões. Para os mais pequenos utiliza, por exemplo, as vulgares latas de leite condensado. Por fora aplica duas camadas de rede. Depois coloca uma massa, composta por brita, areia e cimento. As pedras são compradas numa pedreira e os pedaços são cortados consoante a dimensão do moinho em que se encontra a trabalhar. Um funil de lata, moldado pelas suas mãos, serve de telhado e um peso improvisado em cimento segura a vela, feita de material plástico que é mais resistente uma vez que, normalmente, estas peças servem para decorar espaços exteriores, como jardins ou varandas. Um regulamento engenhado com esferas faz mover a vela de forma natural com o vento. Eurico Brito faz os moinhos por encomenda e os preços variam entre os 50 e 250 euros. “Se pudesse ficava com todos para mim uma vez que aqui estão muitas horas de trabalho”, confessa o artesão orgulhoso na sua arte.
Dorme num carro mas almoça todos os dias no restaurante
Desgosto de amor levou-o a deixar de cortar a barba há 35 anos. Virgílio Silva tem duas casas e três carros, embora nenhum funcione, e optou por viver e dormir num deles.
Há vidas que davam um filme. A de Vírgilio Silva, morador no lugar de Roda Grande, freguesia da Asseiceira, Tomar é uma delas. Este homem de 67 anos, lúcido, bem falante e com uma postura vertical, dorme num velho Renault Major , rodeado por um monte de silvas e sucata, que tem estacionado num terreno localizado no ermo da estrada principal do lugar, que comprou há 20 anos. Não gosta muito de falar nisso porque sente que a situação não o dignifica nem niguém o vai ajudar por isso. Refere que foram as circunstâncias da vida que o obrigaram a viver nesta situação. Independente monetariamente, todos os dias vai almoçar a um restaurante das redondezas. “Á segunda e à terça-feira almoço na Praia do Ribatejo e nos outros dias vou almoçar a Constância mas quando era permitido fazer lume eu fazia aqui o comer”, explica, deslocando-se nessas ocasiões numa scooter moderna. Quando comprou aquele pedaço de terra, a ideia era instalar ali uma oficina de pintura de automóveis – profissão que exerceu durante alguns anos - mas, segundo diz, os vizinhos não concordaram com a ideia, criando problemas com as extremas do terrado, argumentando que por causa da situação chegou a ser agredido. A Junta de Freguesia da Asseiceira quis realojá-lo numa ocasião mas Virgílio Silva não aceita uma vez que tem duas casas e diz que apenas precisava de dinheiro para as arranjar. “
Na Roda Grande, a poucos metros do local onde reside, tem ainda as duas casas que eram dos pais mas problemas relacionados com partilhas com uma irmã impedem-no de ali morar. A habitação que era dos pais não tem luz , ao contrário do que acontece dentro do carro onde vive, e segundo explica o telhado teria que sofrer obras de recuperação. “Ao menos aqui estou naquilo que é meu e sinto-me bem. Tenho a minha privacidade e não pago renda”, justifica, acrescentando que teve sempre uma relação difícil com o pai, a quem chama de “carrasco”. Recorda que quando precisou de um terreno para trabalhar em pintura de automóveis o progenitor opôs-se à ideia. “Tenho estacionado junto a essa casa um Ford V8 e queria fazer uma garagem para pôr lá o carro e até isso ele não me deixou fazer”, exemplifica.
Virgilio Silva foi pintor de automóveis, profissão que aprendeu, em 1954, com 13 anos, frequentando a antiga Base Aérea de Tancos durante seis anos, como aprendiz, não ganhando nada a não ser experiência profissional. “Ao fim desse tempo entrei para o quadro, como servente mas dois anos depois fui chamado para a tropa, entre 62 e 64”, conta que veio a sair da Força Áerea devido a divergências com um capitão que “o andava a perseguir”. Foi quando regressou à Roda Grande e começou a trabalhar em pinturas e, sempre que era preciso, cultivavba os campos com uma moto cultivadora.
Reformado desde 1982, acumula a reforma da Segurança Social com outra pensão de proveniente da Força Aérea, totalizando cerca de 450 euros mensais, o que lhe permite alguma estabilidade para o seu modo de vida. “Quando recebia só da Segurança Social mal dava para comer e nem roupa podia comprar, andava vestido com o que me davam.
O frio que não tem dado tréguas ultimamente parece ser indiferente a Virgílio Silva, que aparenta ter uma saúde de ferro. “Tenho duas lâmpadas de 60 watt no carro que me aquecem e alguns cobertores”, aponta. Reconhece que difícil é tomar banho de água fria, que no Verão toma num terreno de mangueira. “O frio é psicológico”, remata enquanto se prepara para tocar acordeão e saxofone, para aquecer o ambiente junto aquela que considera ser a sua casa.
Desgosto de amor origina longo cabelo e barbas
Há um motivo romântico que justifica as longas barbas que Vírgilio Silva exibe. Namorava uma moça, que queria levar honrada para o altar e respeitou essa honra durante 2 anos e sete meses. “Repudiou-me porque a mãe dela deu-nos uma omeleta de ovos para comer que estava feita para desligar amizades”, conta. Em 1974, quando tinha 26 anos, ouviu dizer que a amada tinha casado com outro. “Senti que me tinha sujado a cara e deixei de cortar a barba pela desonra que me fizeram”. Nunca casou ou teve filhos.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Artistas no Outono da vida
São três senhoras distintas mas têm algo em comum: quando descobriram que tinham talento para as artes já os seus cabelos se encontravam cheios de cãs. O MIRANTE foi conhecê-las e dá a conhecer os trabalhos de três artistas autodidactas da região.
Marlene Mendes, 66 anos: Arte com Tradição

Os trabalhos de Marlene do Céu Lopes Mendes, 66 anos, encontram-se actualmente expostos na Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere, terra de onde é natural e pela qual assume uma ligação profunda. Retratos a carvão, onde se destaca o seu e o do neto Francisco de 12 anos, quadros bordados em linho que pela sua precisão mais parecem telas pintadas a óleo, originais artigos decorativos feitos a partir de materiais recicláveis como pinhas, escamas de peixe ou cascas de nozes são alguns exemplos do que se pode ver na mostra desta artista autodidacta, que tem apenas a 4.ª classe. Telefonista da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere durante 35 anos, Marlene Mendes reformou-se há cerca de dois meses e desde então sobra-lhe mais tempo para se dedicar aquilo que só descobriu que sabia fazer com 60 anos: desenhar retratos. Para bordar a linho, arte que aprendeu com doze anos, já sabia que tinha mão. No seu portfólio conta já 60 quadros bordados a linho e quinze retratos. Diz que herdou o talento da avó “que já fazia com as mãos coisas que não via em mais lado nenhum”.
Marlene Mendes gostava de desenhar e nas horas mortas de trabalho costumava rabiscar mas não se aventurava por ali além. Até que as colegas de serviço a desafiaram a fazer retratos. “Comecei por fazer o meu retrato. Se ficasse mal ria-me de mim própria”, confessou. O resultado agradou a quem mostrou o trabalho e nem o presidente da câmara, Luis Ribeiro, escapou. Depois nunca mais parou e já teve, inclusivé, um quadro, que simboliza uma rua de Paio Mendes, em exposição na Assembleia da República. Também já expôs em Tomar e viu dois dos seus quadros irem parar a Moreni, na Roménia, cidade geminada com Ferreira do Zêzere.
A ferreirense recorda que a arte entrou “mais a sério” na sua vida num período em que se encontrava de baixa, à conta de uma depressão. Foi nessa altura que tentou que os seus bordados em linho parecessem o mais possível com pinturas. O primeiro quadro que bordou foi retirado do livro de poesia “Tojos e Rosmaninhos” de Alfredo Keil. “Quis associar a história do concelho à minha arte”, explica, salientando que a mensagem principal que os seus trabalhos trespassam é o amor que tem à sua terra e às pessoas que nela vivem. Não lamenta o facto de ter deixado passar ao lado uma carreira artística. “Os tempos eram outros e não tinha disponibilidade de tempo que tenho agora. Quero ensinar a minha arte e criar outro tipo de artesanato para a vila”, remata.
Maria Flores, 82 anos: Arte com História

História e Música são as paixões de Maria Flores, 82 anos, que foi durante toda a vida operadora de caixa, andando às volta com contas e números quando na sua cabeça tinha tintas e pincéis. Natural de Tomar, Maria Flores realizou a proeza de pintar a guache as várias dinastias representativas dos Reis de Portugal, que guarda num dossier por ordem cronológica. Noutro dossier tem guardado os desenhos a lápis de carvão das principais figuras da História de Portugal. Ali não faltam os retratos fidedignos de Fernando Pessoa, Samora Marechal, D. Duarte de Bragança, Mário Soares ou Cavaco Silva. Tem apenas a 4.ª classe e nunca tirou nenhum curso relacionado com artes. Á desconfiança começou por desenhar D. Afonso I. “Pensei que se tinha conseguido desenhar este Rei também conseguia desenhar os outros”, refere. Se bem o pensou, melhor o fez. Tirou a as imagens de livros, selos, cromos e outras da sua imaginação, através do que lia sobre o comportamento dos monarcas. Apesar de o ter feito já depois dos 60 anos, Maria Flores recorda que desde criança sente o chamamento pelas artes. “Em pequena ofereceram-me uma caixa de lápis de cor e dormi com ela debaixo da almofada”, recorda. Nas paredes de sua casa, em Marmelais de Baixo, podem-se ver quadros pintados a óleo com a temática da cidade. Um dos últimos que pintou representa o jardim do Convento de Cristo. Mais recentemente fez o brasão para a Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Zêzere. Todo ele emanou da sua imaginação. Utente do Centro de Dia do Lar Nossa Sra da Graça, situado ao lado de sua casa, Maria Flores ocupa parte do seu tempo a desenhar e a pintar. Como tal, dá por si a passar para o papel cenas que presencia no quotidiano. “Gosto muito e hei-de continuar até poder”, assegura.
Clotilde Raposo, 79 anos: Arte com Sentimento

Genuína, emocional e com uma sensibilidade acima do comum. É assim Clotilde Lopes Raposo, 79 anos, artista autodidacta que descobriu que tinha talento para as artes há apenas sete anos. Pode-se dizer que foi a melancolia que a fez acordar o talento para as artes, contava já 72 anos. Estava na sua casa, em Vila Moreira, Alcanena, e sentia-se triste, muito triste. Foi por instinto que olhou para a fotografia da filha, de olhos meigos e tranças louras, pousada em cima do móvel e lembrou-se de a desenhar num pedaço de papel que ali se encontrava ao lado. Quando acabou ficou espantada com o que tinha conseguido fazer: “Disse a mim própria: Ah! Isto até ficou bem”, recorda. Entusiamada com a descoberta, mandou comprar tintas e pincéis e pôs-se a desenhar tudo o que via, fosse um objecto na sua casa, fosse um quadro numa revista, fosse uma imagem na televisão. Muitas vezes madrugada dentro, mergulhada na solidão.”Tenho mais tendência para os retratos ou para pintar paisagens mas só aquelas que são mais fora do comum”, explica. Inicialmente não mostrava os trabalhos a ninguém. Por receio que não fossem nada de jeito. Mas certo dia mostrou a uma amiga mais entendida em arte que lhe disse que aquilo estava muito bom e teria de ser mostrado ao mundo.Telas sucederam a telas e há cerca de cinco anos, e depois de ter organizado algumas exposições em várias regiões, destacando a que esteve no posto de turismo de Fátima e que foi vista por milhares de peregrinos, abriu uma Galeria na sua terra, a poucos metros de casa, onde tem expostas dezenas de obras a aguarela, óleo, pastel e carvão.
Clotilde Raposo parou de pintar há quatro anos quando o filho faleceu, aos 53 anos, num acidente de viação. A vontade de pintar morreu nesse dia também. Premonitoriamente, o último quadro que pintou retratava um mar revolto anunciando uma tempestade. A alma de artista fala mais alto e ganha novos contornos: o da escrita. Palavras, sobretudo, que reflectem pensamentos provindos do coração dilacerado de uma mãe que não entende porque o filho partiu antes dela. Palavras de Dor.
Clotilde Raposo é, acima de tudo, autêntica. Por isso na hora de tirar a foto, não sorri. Porque o sorriso não espelha o que lhe vai na alma. Na sua alma de artista.
Elsa Ribeiro Gonçalves
Marlene Mendes, 66 anos: Arte com Tradição
Os trabalhos de Marlene do Céu Lopes Mendes, 66 anos, encontram-se actualmente expostos na Biblioteca Municipal de Ferreira do Zêzere, terra de onde é natural e pela qual assume uma ligação profunda. Retratos a carvão, onde se destaca o seu e o do neto Francisco de 12 anos, quadros bordados em linho que pela sua precisão mais parecem telas pintadas a óleo, originais artigos decorativos feitos a partir de materiais recicláveis como pinhas, escamas de peixe ou cascas de nozes são alguns exemplos do que se pode ver na mostra desta artista autodidacta, que tem apenas a 4.ª classe. Telefonista da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere durante 35 anos, Marlene Mendes reformou-se há cerca de dois meses e desde então sobra-lhe mais tempo para se dedicar aquilo que só descobriu que sabia fazer com 60 anos: desenhar retratos. Para bordar a linho, arte que aprendeu com doze anos, já sabia que tinha mão. No seu portfólio conta já 60 quadros bordados a linho e quinze retratos. Diz que herdou o talento da avó “que já fazia com as mãos coisas que não via em mais lado nenhum”.
Marlene Mendes gostava de desenhar e nas horas mortas de trabalho costumava rabiscar mas não se aventurava por ali além. Até que as colegas de serviço a desafiaram a fazer retratos. “Comecei por fazer o meu retrato. Se ficasse mal ria-me de mim própria”, confessou. O resultado agradou a quem mostrou o trabalho e nem o presidente da câmara, Luis Ribeiro, escapou. Depois nunca mais parou e já teve, inclusivé, um quadro, que simboliza uma rua de Paio Mendes, em exposição na Assembleia da República. Também já expôs em Tomar e viu dois dos seus quadros irem parar a Moreni, na Roménia, cidade geminada com Ferreira do Zêzere.
A ferreirense recorda que a arte entrou “mais a sério” na sua vida num período em que se encontrava de baixa, à conta de uma depressão. Foi nessa altura que tentou que os seus bordados em linho parecessem o mais possível com pinturas. O primeiro quadro que bordou foi retirado do livro de poesia “Tojos e Rosmaninhos” de Alfredo Keil. “Quis associar a história do concelho à minha arte”, explica, salientando que a mensagem principal que os seus trabalhos trespassam é o amor que tem à sua terra e às pessoas que nela vivem. Não lamenta o facto de ter deixado passar ao lado uma carreira artística. “Os tempos eram outros e não tinha disponibilidade de tempo que tenho agora. Quero ensinar a minha arte e criar outro tipo de artesanato para a vila”, remata.
Maria Flores, 82 anos: Arte com História
História e Música são as paixões de Maria Flores, 82 anos, que foi durante toda a vida operadora de caixa, andando às volta com contas e números quando na sua cabeça tinha tintas e pincéis. Natural de Tomar, Maria Flores realizou a proeza de pintar a guache as várias dinastias representativas dos Reis de Portugal, que guarda num dossier por ordem cronológica. Noutro dossier tem guardado os desenhos a lápis de carvão das principais figuras da História de Portugal. Ali não faltam os retratos fidedignos de Fernando Pessoa, Samora Marechal, D. Duarte de Bragança, Mário Soares ou Cavaco Silva. Tem apenas a 4.ª classe e nunca tirou nenhum curso relacionado com artes. Á desconfiança começou por desenhar D. Afonso I. “Pensei que se tinha conseguido desenhar este Rei também conseguia desenhar os outros”, refere. Se bem o pensou, melhor o fez. Tirou a as imagens de livros, selos, cromos e outras da sua imaginação, através do que lia sobre o comportamento dos monarcas. Apesar de o ter feito já depois dos 60 anos, Maria Flores recorda que desde criança sente o chamamento pelas artes. “Em pequena ofereceram-me uma caixa de lápis de cor e dormi com ela debaixo da almofada”, recorda. Nas paredes de sua casa, em Marmelais de Baixo, podem-se ver quadros pintados a óleo com a temática da cidade. Um dos últimos que pintou representa o jardim do Convento de Cristo. Mais recentemente fez o brasão para a Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Zêzere. Todo ele emanou da sua imaginação. Utente do Centro de Dia do Lar Nossa Sra da Graça, situado ao lado de sua casa, Maria Flores ocupa parte do seu tempo a desenhar e a pintar. Como tal, dá por si a passar para o papel cenas que presencia no quotidiano. “Gosto muito e hei-de continuar até poder”, assegura.
Clotilde Raposo, 79 anos: Arte com Sentimento
Genuína, emocional e com uma sensibilidade acima do comum. É assim Clotilde Lopes Raposo, 79 anos, artista autodidacta que descobriu que tinha talento para as artes há apenas sete anos. Pode-se dizer que foi a melancolia que a fez acordar o talento para as artes, contava já 72 anos. Estava na sua casa, em Vila Moreira, Alcanena, e sentia-se triste, muito triste. Foi por instinto que olhou para a fotografia da filha, de olhos meigos e tranças louras, pousada em cima do móvel e lembrou-se de a desenhar num pedaço de papel que ali se encontrava ao lado. Quando acabou ficou espantada com o que tinha conseguido fazer: “Disse a mim própria: Ah! Isto até ficou bem”, recorda. Entusiamada com a descoberta, mandou comprar tintas e pincéis e pôs-se a desenhar tudo o que via, fosse um objecto na sua casa, fosse um quadro numa revista, fosse uma imagem na televisão. Muitas vezes madrugada dentro, mergulhada na solidão.”Tenho mais tendência para os retratos ou para pintar paisagens mas só aquelas que são mais fora do comum”, explica. Inicialmente não mostrava os trabalhos a ninguém. Por receio que não fossem nada de jeito. Mas certo dia mostrou a uma amiga mais entendida em arte que lhe disse que aquilo estava muito bom e teria de ser mostrado ao mundo.Telas sucederam a telas e há cerca de cinco anos, e depois de ter organizado algumas exposições em várias regiões, destacando a que esteve no posto de turismo de Fátima e que foi vista por milhares de peregrinos, abriu uma Galeria na sua terra, a poucos metros de casa, onde tem expostas dezenas de obras a aguarela, óleo, pastel e carvão.
Clotilde Raposo parou de pintar há quatro anos quando o filho faleceu, aos 53 anos, num acidente de viação. A vontade de pintar morreu nesse dia também. Premonitoriamente, o último quadro que pintou retratava um mar revolto anunciando uma tempestade. A alma de artista fala mais alto e ganha novos contornos: o da escrita. Palavras, sobretudo, que reflectem pensamentos provindos do coração dilacerado de uma mãe que não entende porque o filho partiu antes dela. Palavras de Dor.
Clotilde Raposo é, acima de tudo, autêntica. Por isso na hora de tirar a foto, não sorri. Porque o sorriso não espelha o que lhe vai na alma. Na sua alma de artista.
Elsa Ribeiro Gonçalves
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