quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Aluno chama “frustrado” a professor e acaba suspenso


Um aluno do 10.º ano da Escola Secundária Jácome Ratton, em Tomar, queixa-se que o professor de Economia o terá agredido no decorrer de uma aula que já não começou bem mas o Conselho Executivo nega a existência de qualquer agressão e justifica a suspensão devido a um acumular de situações de mau comportamento por parte do aluno.

O caso aconteceu na quarta-feira, dia 16 de Janeiro, pelas 16 horas.
O professor terá perdido as estribeiras quando o aluno o chamou de “frustrado” e empurrou-o para cima de mesa e uma cadeira, após o que este caiu no chão. De seguida, e segundo este aluno, os colegas solidarizaram-se com o jovem e foram, em grupo, explicar a situação ao Conselho Executivo, reunião onde o professor não falou por se mostrar muito nervoso com toda a situação, abandonando a escola em seguida.
Leandro Domingos, 19 anos, disse a “O Templário” que a aula de Economia “já tinha começado mal”, estando o professor muito exaltado desde o início da mesma e que este já tinha colocado “metade da turma na rua” por coisas mínimas ao que o aluno lhe terá chamado a atenção referindo que este comportamento só poderia advir do facto deste estar “frustado”. Chamado à atenção pelo professor, que lecciona naquela escola há 18 anos, Leandro Domingos terá voltado a insistir que o facto do docente mandar tantos alunos para a rua só poderia ser “frustração” e foi aí que a situação ganhou contornos mais graves.
“O professor, desde o princípio do ano, vem criando mal-estar na aula e manda toda a gente para a rua, por coisas mínimas. Nesta aula não consegui aguentar mais o professor assim e disse-lhe para ir ao psicólogo porque devia estar frustado ao que ele vira-se de costas e disse-me que dava um estalo”, contou o aluno. Após a ameaça de estalos por parte do docente o aluno voltou a ripostar: “Dá-me um estalo: isso é mesmo frustração”. Foi aí que, segundo o aluno, o professor virou costas e mandou-o para cima de uma mesa e cadeira, após o que ficou estatelado no chão.
Os alunos não podem bater num professor mas os professores podem agarrar num aluno e mandá-lo para cima de uma cadeira e não lhes acontece nada”, apontou outro aluno, primo do visado, revoltado com a suspensão do colega.
Leandro Domingos, aluno do curso de Informática de Gestão, é repetente do 10.º ano pela terceira vez. Vive com os avós nos arredores da cidade e é apontado pelos professores como um aluno com problemas de comportamento. Apesar disso, foi a primeira vez que foi suspenso. “Posso ter alguma culpa mas não acho que o que eu disse justifica o que ele fez”, remata o jovem.
Maria João Morais, do Conselho Executivo, explicou a “O Templário” que “não houve qualquer agressão” e que a suspensão do aluno resultou de “um acumular de situações”.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Coveiro de Tomar já foi rico


Em 1996 Carlos Manuel Ferreira Simões, coveiro municipal, fez um seis no totoloto. Passados dez anos “O Templário” quis saber o que aconteceu ao tomarense que um dia já foi milionário: gastou quase toda a fortuna na construção de uma vivenda e continuou a trabalhar como coveiro.

Fomos encontrá-lo no cemitério de Marmelais, onde trabalha há 20 anos. Combinado o trabalho para dali a dois dias, Carlos Simões, 41 anos, aceitou falar sobre o dia em que viu a sua vida mudar: 5 de Fevereiro de 1996. Tinha 31 anos e ganhou, na altura, mais de 23 mil contos no totoloto.
“Lembro-me desse dia porque andava a abrir uma cova para um senhor e, na lápide dele está lá essa data”, recordou. Em anos anteriores, Carlos Simões já jogava com mais 19 pessoas numa sociedade mas, por azar, desistiram da sociedade umas semanas antes de poderem vir a ser contemplados com o primeiro prémio. “Se tivéssemos continuado a jogar na sociedade, e com aquela chave, tínhamos feito um seis e o suplementar. Na altura, calhava-nos dois mil contos a cada um”, contou.
O episódio causou-lhe algum transtorno pelo que decidiu continuar a apostar na sorte grande, desta vez, sem sócios à mistura. Andou quase um ano a jogar sozinho até que chegou o dia em que foi bafejado pela sorte grande. “Tinha jogado com duas chaves de oito números e foi o senhor Zé que me viu os totolotos num café onde eu ia comer qualquer coisa, que ficava por detrás do cemitério velho, é que me disse que num deles eu tinha um seis… Depois demos um abraço”, recordou ao nosso jornal. Nesse dia ficou fora de si e, assim que pode, dirigiu-se à Papelaria Nova, em Tomar, onde tinha metido o boletim, para confirmar o que, até ali lhe parecia um sonho. “Na papelaria não me quiseram dizer nada mas mais tarde recebi um telefonema a dizer que tinha tido um seis e a perguntar se queria ir à televisão”, relatou-nos. Nessa semana o primeiro prémio foi dividido por Carlos Simões e mais cinco totalistas. “Naquele dia à noite, não tenho vergonha de dizer que chorei”, confessou.
Passaram 20 dias até que recebeu o cheque no valor de 23 mil e 600 contos. O patrão ajudou-o a tratar de arranjar o cartão multibanco. “Levei o cheque no bolso e dirigi-me à Caixa Geral de Depósitos na Alameda Um de Março para depositar o cheque e lembro-me que até o empregado ficou admirado com o cheque”, conta a sorrir.
Carlos Simões recorda também que, na altura, foi, na companhia de um colega, ao programa “Clube dos Totalistas”, apresentado por Carlos Ribeiro, onde contou a sua história. “Gostei muito de lá ir e fiquei com a cassette do programa para recordação”, refere. “Na altura brincaram comigo e perguntaram-me que tipo de noiva eu queria arranjar. Eu disse que tinha que ser trabalhadora, honesta e que me desse a volta à cabeça para me ‘rapar’ o dinheiro todo”, contou a rir.

18 Mil contos gastos na casa

A maior parte do dinheiro que lhe saiu no totoloto foi investido na construção da casa de que muito se orgulha e que hoje tem na Peralva. “Toda a gente gozava por comigo por causa de eu viver com a minha mãe numa casa velha e que, de ano para ano, se degradava mais pelo que eu já era para pedir dinheiro ao banco para as obras e decidi fazer uma casa nova, no mesmo local”, explicou. “Desde aí nunca mais ninguém gozou”, acrescentou. Uma alegria que deu à sua mãe, Maria de Jesus, entretanto já falecida. “O resto do dinheiro foi para o dia-a-dia e acabou por se gastar”, contou.
A vivenda que construiu – uma das que mais vista faz na pequena aldeia – tem 8 assoalhadas e cerca de 15 m2. É ali que actualmente vive com a mulher, Carla Subtil e com a pequena Maria Vitória, de 4 anos. Uma bonita família que não tinha quando lhe saiu a fortuna, dado que era ainda “solteiro e bom rapaz”.
Carlos Simões recorda que, depois de lhe ter saído o totoloto, houve muita gente que se aproximou dele para lhe pedir dinheiro. E também não faltaram “moças casadoiras”, subitamente interessadas nos seus belos olhos. “Houve uma que até disse à minha mãe que lhe fazia uma permanente de graça”, diz o ex-milionário. Carlos Simões não foi em cantigas e apenas deu 150 contos para a igreja da aldeia, para agradecer a sorte.
As pessoas admiravam-se de Carlos Simões continuar a trabalhar como coveiro e, ainda por mais, continuar a utilizar a bicicleta como meio de transporte. “Não ia deixar de trabalhar. Estava a construir uma casa e sabia que o dinheiro se estava a gastar”, afiançou. A construção da nova vivenda durou pouco mais de um ano.

A tentação do jogo

A nova casa já estava construída há 2 anos quando Carlos Simões encontrou o que ainda lhe fazia falta: uma mulher. “Casei com 34 anos, um mês depois de começar a namorar”, recordou. Conheceu Carla, que trabalhava num café das redondezas, e começou a falar com ela nas viagens de autocarro. Gostaram um do outro, deram um passeio até á praia e decidiram casar. “Eu não sabia que lhe tinha calhado o totoloto e que ele vivia numa casa assim”, contou Carla ao nosso jornal, revelando que ficou surpreendida quando viu a casa do noivo pela primeira vez. “Não estava nada à espera que ele tivesse uma casa assim na aldeia”, contou a jovem. Dois anos depois nasceu Maria Vitória, a menina dos seus olhos e que agora, com 5 anos, é a sua maior riqueza.
Carlos Simões continuou sempre a jogar no totoloto e houve semanas em que gastava mais de 15 contos em apostas semanais em jogo. “Chegou a calhar-me mais algum dinheiro na lotaria e deu para comprar o berço para a minha filha”, recorda. A mulher conseguiu convencê-lo, a muito custo, a não gastar tanto dinheiro no jogo, conselho que acatou de há uns anos para cá. Actualmente, continua a apostar, com mais um sócio, numa chave de totoloto porque, tal como outros que já foram bafejados pela sorte grande um dia, acredita religiosamente que o totoloto lhe vai sair outra vez.



Homem dos sete ofícios

Mesmo depois de saber que tinha sido um dos cinco portugueses contemplados com um seis no totoloto, Carlos Simões nunca deixou de trabalhar como coveiro, profissão que exerce sem interrupção há 20 anos. “É um trabalho que não me importo de fazer. Eu costumo dizer que eles não reclamam”, refere com humor.
Actualmente, continua a dirigir-se da Peralva, uma aldeia da freguesia de Pailavo, para o cemitério de Marmelais, em Tomar. Percorreu muitas vezes esta distância, cerca de 18 quilómetros, na sua bicicleta ou então de autocarro. Homem muito trabalhador, aproveita os fins-de-semana ainda para fazer alguns “biscates”, seja a limpar-chaminés, oliveiras ou a cortar lenha com um moto-serra. Porque um homem “tem que fazer pela vida” e há trabalhos que tem que ser feitos.

(publicado na edição n.º 938 do Jornal "O Templário" a 14 de Dezembro de 2006)

Mãe – coragem dá vida pelo filho




Ana Antunes escreve aos 23 anos a passagem mais delicada da sua jovem vida. Prepara-se para doar parte do fígado ao seu filho David, de 8 meses, a quem foi diagnosticada uma cirrose hepática. É a única maneira de salvar o seu menino. Uma história comovente que se passa numa aldeia do concelho de Ferreira do Zêzere.


Foi na pequena aldeia de Alqueidão de Santo Amaro que encontrámos Ana Antunes, a mãe que amanhã, 16 de Março, vai ser internada no Hospital Pediátrico da Universidade de Coimbra para submeter-se a uma delicada intervenção cirúrgica que vai salvar a vida do filho de apenas oito meses. Ana, de 23 anos, prepara-se para doar parte do fígado, um órgão que acabará por se regenerar naturalmente, para tratar a cirrose hepática de que sofre o bebé que deu à luz a 20 de Junho de 2005, depois de várias horas de trabalho de parto.
David Tiago é o primeiro filho de Ana e Nuno Miguel. O casal não planeou a gravidez que, no entanto, foi bem-vinda. “Nunca pensei que tivesse que passar por isto. Não foi uma gravidez planeada. Andávamos a tentar, se o bebé viesse… vinha”, começou por explicar a “O Templário”.
Uma gravidez de 40 semanas e 4 dias que a jovem ferreirense viveu sem sobressaltos nem angústias. “Foi uma gravidez normalíssima, sem problemas, nem enjoos”, atestou, salientando que só sofreu nas horas que antecederam o parto, no Hospital Bissaya Barreto, em Coimbra. “Estive muitas horas para o ter e teve que ser com ventosas”, explicou. Ali esteve com o bebé internada 4 dias, como é habitual em todas as recém-mamãs, até receber alta.
Os primeiros sinais da doença do David surgiram estavam duas semanas depois nascimento. “Começou-se a fazer amarelo e fiquei aflita. Fui ao Centro de Saúde, onde estava a ser acompanhada pelo médico de família, que me aconselhou a expor o bebé à claridade porque era icterícia e, em princípio, depois passava”, relatou. Mas, contrariamente à informação médica, o problema não só não passou como se foi agravando cada vez mais. “Passou um mês e sete dias, vi que ele estava cada vez mais amarelo pelo que fui à pediatria do Hospital e ali disseram-me que era hepatite”, recorda Ana Antunes. Uma notícia que quase fez ruir o seu mundo. “De hepatite a doença evoluiu para cirrose e agora só o transplante o salvará”, lamenta.
Questionada sobre as causas desta doença no seu filho, Ana Antunes, que também procurou saber o mesmo refere que a médica lhe adiantou uma explicação mas que até pode nem ser a real causa da doença. “Disseram-me que os bebés tanto vão buscar células boas como más… ele foi buscar as más”, refere.


Operação delicada


Quem observa o pequeno David Tiago a dormir serenamente, enrolado a um cobertor, não se apercebe que sofre desta doença. “Ele é um bebé que sempre foi muito mexido. Se ouvir vozes olha logo na direcção do som e quer agarrar nas coisas, apesar de não ter forças nas pernas nem nos braços porque o corpo quando não tem proteínas suficientes vai buscá-las a esses membros. Mas de resto quem olha para ele diz que é um bebé normal e que não tem doença nenhuma”, conta enquanto olha para o rebento.
A jovem mãe está consciente do risco de vida que ambos correm mas não pensou duas vezes assim que a médica a informou que era dadora compatível e lhe perguntou se queria dar parte do fígado ao filho. “Quando esteve internado esta última vez, entre 31 de Janeiro e 27 de Fevereiro, a médica disse-me que ele, para se salvar, tinha que ser transplantado o mais rapidamente possível. Perguntou-me qual era o meu grupo sanguíneo, fiz todas as análises e exames necessários e, já depois de ter os resultados, a médica conversou comigo. Depois disse-me que eu era compatível e perguntou-me se podia doar um pedaço do meu fígado para o salvar. Eu disse logo que sim porque sei que o meu filho não pode estar mais tempo na lista de espera porque a situação agrava-se muito mais”, relatou Ana Antunes ao nosso jornal. “Sou mãe e quero que ele continue com a vida dele para a frente”.
No dia 16 de Março, Ana Antunes, vai ser internada no Hospital pediátrico de Coimbra, único local do País onde se realiza este tipo de transplante, para tentar salvar a vida do seu filho. “Ainda não sei a data da operação, mas a partir desse dia pode realizar-se a qualquer momento”, disse. Ana está consciente de que será uma operação delicada e que a taxa de sobrevivência de pacientes sujeitos a transplante com dador vivo é superior a 90 por cento. “É uma operação muito delicada, muito morosa e tem vários riscos associados, como a possibilidade de se dar um derrame – é bom a gente nem pensar nisso. Há também o risco de ele rejeitar o fígado, já depois da operação. Era bom que não, que tudo corresse bem”, desabafa, revelando-se uma pessoa positiva.
Uma luta que já conheceu um primeiro ensaio a 7 de Março, quando Ana Antunes se deslocou aos Hospitais da Universidade de Coimbra para ser internada. “Mandaram-me para casa mais uma semana para que ele ganhasse mais forças mas eu não me importava de já ter ficado lá e fazer a operação no outro dia. Para mim quanto mais depressa ele fizer a operação melhor”, referiu.
“Há muita gente que chega aqui ao pé de mim, para me dar apoio, e chora. Não chorem. Lutem pela vida, como eu estou a lutar pela vida do meu filho”, reforça esta mãe – coragem.

(publicado na edição n.º 951 do Jornal O Templário a 15 de Março de 2006)